sexta-feira, 30 de julho de 2010

Coletivo comum

Férias são efetivamente bom tempo. Mesmo que não façamos nada, o que não é recomendável, a mudança prolongada de rotina ajuda inclusive a renovar a perspectiva do trabalho. A retomar o foco, em outras palavras. Para mim férias e feriados estão associados a viagens. Seja pelo fato de a minha mãe morar a uma distância razoável – com a graça divina –, seja por eu realmente achar necessário pegar a estrada para considerar que estou oficialmente "de folga e longe de tudo".

Esse ano, como dito antes, acabei parando de novo em São Paulo. Para quem me acompanha, vez por outra apareço pelas bandas de lá, preferencialmente a passeio e em dias frios mas ensolarados. Não gosto de São Paulo com chuva. Também não gosto de avião, porém o meu gostar não interfere na mecânica da coisa. Vem acontecendo de eu ver e falar mais com os amigos paulistas que com os mineiros ali da esquina, e São Paulo sempre me é muito prazeroso.

Como em todas as férias, carrego um kit de sobrevivência com livros que não li e dvds que não assisti – tenho horror do Word me sugerir dvd em maiúscula, soa agressivo aos olhos. E, claro, como em todas as férias, não faço metade. Só li um livro. Na verdade estou nas últimas páginas, e vou passar a minha coleção da Mediadora adiante, deixar para ler no fim do ano. Nem gasto metade da mala de roupas, o que é perfeitamente comum.

O livro que li – estou lendo – é O símbolo perdido. Daquele cara que escreveu O Código Da Vinci e ajudou a deixar o Tom Hanks com mais cara de babaca. Entenda: vez por muita preciso da literatura descartável para sobreviver. E, sejamos francos, esse livro é bom. Melhor que o Código, mas não tão bom quanto Anjos e demônios, que tem um frescor magnífico ainda não superado pela experiência do autor. Se o Robert Langdon durar mais uns três episódios – ele tem fôlego, idade e mercado para isso –, talvez o Dan Brown se supere.

Quem mais me interessou no Símbolo perdido foi uma personagem feminina coadjuvante: Trish Dunne. Não quero me aprofundar no livro para não estragar o prazer de quem não leu. Trish me marcou por ter desenvolvido um software para medir a temperatura de uma nação. Copiando do livro:

"(...) O que estou querendo dizer é que ele quantifica o estado emocional do país. (...) – Trish explicou como, usando um campo de dados constituído pelas comunicações do país, era possível avaliar o humor da nação com base na 'densidade de ocorrência' de determinadas palavras-chave e indicadores emocionais no campo de dados. Épocas mais felizes tinham uma linguagem mais feliz, e épocas de estresse uma linguagem mais estressada."

Não sei a dimensão de verdade desse software, perfeitamente plausível na minha cabeça, e, francamente, ideia de gênio assim como os clipes e a fita crepe. O livro discute en passant a questão ética da análise de dados pelo governo, mas a personagem em si é pragmática: o uso que fazem do produto desenvolvido não diz respeito a ela. Santos Dumont, dizem, se matou ao ver o avião ser usado como arma. Trish não morreria por isso.

Retomando o fio das férias, gosto muito de ir a São Paulo mesmo quando não previsto – esse ano pretendia visitar qualquer lugar com praia. Férias me servem enquanto reciclagem, e já pus de lado faz muito a vergonha de pedir aos amigos para me indicarem coisas. Como, por exemplo, músicas novas. Ando bastante reacionário musicalmente, talvez preguiçoso, e não encontro vontade de conhecer novidade. Por isso, também, gosto de visitar os amigos, beber vinho, jogar baralho, falar besteira e escutar um monte de música pela primeira vez. Ano passado fiquei conhecendo a Mariana Aydar. Esse ano fui apresentado a Karina Buhr, Mayra Andrade, Cibelle Cavalli e, especialmente, a Tulipa Ruiz.

Já tinha lido algumas pessoas comentando da Tulipa antes. Só que o nome de flor não me atraiu. Eu gosto de mulheres com nome de flor, mas fiquei naquelas de "ah não vou ouvir disco de mulher com esse nome não". Erro meu.

Entreguei o iPod e disse para meu amigo: "pode tirar tudo, menos a Dolores". Quando fui ouvir pus o conteúdo no shuffle e assim, só assim, ouvi a Tulipa cantar Efêmera, e me encantei pela voz da moça. Disco todo ouvido – aliás, dá para ouvir o disco inteiro aqui –, ficou a sensação de que a moça cantava para mim. Especificamente na música Às vezes, que pareceu a Tulipa literalmente estar me mandando um bilhete.

Quando vou a São Paulo passeio pela Augusta, sempre de óculos escuros, e ignoro o mundo. Blasé sem saber, disse um amigo certa vez. Sem endereço mas com o mesmo telefone, rodo pelas festas e pelos bares do centro da cidade. Tenho ar cansado, banal e normal e, claro, moro em Belo Horizonte. Ouça a música para entender melhor.

Comentei sobre isso com uma amiga, que respondeu: "é a tribo". Ficaram dúvidas: seria minha geração tão comum ao ponto de várias pessoas se identificarem tão profundamente com diversas expressões como se elas tivessem sido produzidas diretamente para o indivíduo e não para a massa? Seríamos nós, a tribo, um metassistema, um cardume, no qual a linha de pensamento é tão compartilhada que acabamos por nos tornar estrutura única – composta por milhões de unidades distintas, mas vista como um grande bloco? E se sim, fazer parte disso seria algo bom ou não?

Fatos: minha geração agrupa a transitoriedade da capacidade de aquisição de informação. Saímos do telefone de ficha para o iPhone, da TV preto e branco para o Youtube – meu grande facilitador de ver novelas. Fomos os primeiros a experimentar a possibilidade de expressão para a globalidade pelo simples fato de estarmos vivos na época em que "fazer um blog" era algo muito novo. Com isso geramos, pelas tentativas e erros, uma grande gama de informação sobre nós mesmos. Os mais inteligentes transformaram as informações e desejos nelas contidos em produto – produtos com identidade, como Reverbcity e congêneres, Ronaldo Fraga e suas roupas ilustradas com personagens Disney, séries da minha infância lançadas em dvd e por aí vai. A geração que era criança na década de 1980, relembro, foi a primeira efetivamente bombardeada pelo furor consumista ainda não regulamentado.

E não precisava um software para desenvolver essa linguagem. A Tulipa, provavelmente, lê muito, circula muito, participa de um grande grupo do qual, mesmo sem querer, faço parte também. Fazemos parte, acho pouco provável que adolescentes apaixonadas pelo mini Fabio Jr. compartilhem gostos comigo. A Tulipa canta bem e eu anseio por um show dela em BH para dar um grande abraço. Mas ouvir Às vezes me deu o grande medo de ser comum demais, ordinário demais, e também de estar fazendo tudo ao contrário, e de ter ficado comum por ter tentado simplesmente ser diferente do resto.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Sete anos

Por vezes me questiono a necessidade ou não de expor em um blog parcelas íntimas demais, pessoais demais. Porém, de certa forma, certos tipos de exposição, mesmo parecendo extremamente cruéis e inúteis acabam se tornando também libertadoras. E, no fundo, o que quero hoje é tratar sobre libertação.

Começo com Federico Garcia Lorca, A Casa de Bernarda Alba:

En ocho años que dure el luto no ha de entrar en esta casa el viento de la calle. Haceros cuenta que hemos tapiado con ladrillos puertas y ventanas. Así pasó en casa de mi padre y en casa de mi abuelo. (...) Y no quiero llantos. La muerte hay que mirarla cara a cara. ¡Silencio! ¡A callar he dicho! ¡Las lágrimas cuando estés sola! ¡Nos hundiremos todas en un mar de luto! (...) ¿Me habéis oído? Silencio, silencio he dicho. ¡Silencio!

Para Bernarda, eram oito anos o tempo do luto decretado. Em minha cabeça, quando comecei a pensar esse texto, teriam sido sete. Tenho até hoje a memória da encenação da peça em uma casa velha, com a matriarca nos expulsando ao final, decretando o fechamento da residência pelos próximos anos. Sete. Como os anões da Branca de Neve, e com todo o simbolismo que o número traz em si. Apesar de o texto me contradizer com relação à duração do luto, penso sete enquanto número simbólico ideal.

Sete anos atrás passei parte de meu aniversário em um cemitério de uma cidade perto de São Paulo. Fosse hoje eu teria saído correndo naquele exato momento, fugindo no primeiro sinal. Mas não era, não poderia ter sido hoje. Há sete anos começava, sem eu saber, um tempo de luto. Por ironia o luto vem a se encerrar comigo, de volta a São Paulo, passando o aniversário na Loja da Galinha Morta. Irônico, diria aquele que controla o ciclo da vida.

Sete anos atrás meu pai era diagnosticado com câncer, vindo a morrer alguns anos depois – não trato desse luto específico por agora. Sete anos atrás eu decidi abandonar um emprego no qual permaneci por exatos sete anos. Seria estupidez de minha parte não assimilar a influência dos ciclos de sete em minha vida. Dizem, inclusive, que o paladar humano muda de sete em sete anos. Razão pela qual eu, talvez, tenha provado uma berinjela e gostado, e comido jiló sem achar ruim.

Voltemos ao luto, senão o texto se estende mais do que devia, fica cansativo e não chega ao final arrebatador no qual eu revelo toda a minha verdade, me liberto e tomo uma decisão definitiva que transforma minha vida. (Por favor, se você espera por isso vá ler Sidney Sheldon e me deixe em paz. Não sou uma obra de ficção – elas têm pontos finais. Estou mais para work in progress.)

O fato é que já se foram sete anos nos quais uma parcela, ainda que pequena, de mim mesmo, ficou fechada para as portas e o vento das ruas. Sete anos em que o medo de caminhar pelo centro de São Paulo passeou lado a lado com o desejo de encontrar alguém, acidentalmente, e perguntar: "por quê"? E ter medo de minha reação. E ter medo do desejo. E ter medo das respostas. E ter medo de saber tudo isso pelo simples, natural e humano medo do desconhecido.

Até que.

Até que enfim vi que não é mais isso. Enfim veio o imenso e necessário vazio, pronto para ser preenchido com cores novas. Foi perdido o temor de caminhar e esbarrar sem querer em quem não devia. Perdi a vontade de caminhar e esbarrar em quem gostaria. Perdeu-se o sentido. Não há mais sentido. No hay banda, já mostrou David Lynch.

¡Quiero irme de aqui, Bernarda! ¡Bernarda, yo quiero um varón para casarme y para tener alegria!

Declaro, portanto, encerrado o tempo do luto. E essa é uma carta de despedida que importa pouco. Poderia ir para um baú e ficar por lá a amarelar, calhou de vir para um blog que não sei quem lê. Declaro visto que não há tristeza, não há alegria, não há nada. Talvez uma sombra, como a cicatriz em minha mão, que vez por outra me faz ter história para contar. E uma ou outra prevenção como as que tomo quando entro em lugares onde sou mal atendido. Se houver encontro, quando houver, se é que já não o houve, será um cruzamento entre desconhecidos. Como aqueles que acontecem todos os dias quando cruzamos por transeuntes que nunca mais veremos.

E a quem me perguntar por que tudo isso é importante para estar escrito aqui respondo: porque foi sim minha vida. Agora abro as portas todas deste quarto, deixo o mundo e o sol entrar.

É hora, de novo, de ser livre.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Band-Aid

Um dos primeiros desencantamentos que tive foi quando a minha mãe me levou a um programa infantil daqui de Minas Gerais. Viajamos de Ponte Nova a Belo Horizonte para passar as férias e, entre outras coisas, fomos assistir à gravação do programa. Partindo do pressuposto que só fui entender alguma coisa de operação de câmera, roteiro, direção e congêneres na faculdade, o que mais me surpreendeu (e frustrou) na época foi perceber que as pessoas eram sérias.

Porque criança tem disso, todos riem para ela. Até que não riem mais. Existe um momento em que a criança deixa de ser engraçadinha para virar uma chata, e o adulto se cansa. Mas a apresentadora de tevê, a Tia Dulce, ela sempre sorria. Era ligar a televisão no horário e lá estava ela. Sorrindo, simplesmente, coordenando brincadeiras e servindo de babá. Eu adorava a Tia Dulce como todas as crianças do meu tempo. Continuei gostando depois que fui à gravação do programa. Mas, verdade, me decepcionei muito quando vi a Tia Dulce séria, Rapadura e Pituchinha de cara fechada. Como assim ela não está feliz o tempo todo? Por que ela está brigando com aquele moço? Essa não é a Tia Dulce que eu conheço.

Foi em um programa infantil, ou em uma gravação deste, que comecei a perceber que as pessoas não são o que parecem. A Tia Dulce não é toda fofa, a professora não está sempre correta (e já tive brigas horrorosas com professores por conta disso), o amigo "legal" pode ser um "mala". Adiantando um pouco, foi uma frustração memorável — e quem se lembre de algo ocorrido aos cinco, seis anos de idade que não seja "trauma" levante a mão — que desencadeou o meu processo de entendimento de que todas as pessoas vêm com diferentes nuances. Pai e mãe não contam: o filho nasce acostumado às variações de humor domésticas, para ele os pais "são assim" simplesmente.

Parte de minha personalidade é construída na essência por memórias de frustrações: a noite de Natal em que acordei e vi os meus pais colocando os presentes do Papai Noel nos sapatos (não desejem que seus filhos descubram assim que o Papai Noel não existe – chorei dois bons dias); a briga de colégio que não aconteceu porque as serventes da escola seguraram a mim e ao outro no meio da praça (Fabiano, nunca mais vi); a bolada na cara no jogo de futebol infantil que me fez descalçar as chuteiras para todo o sempre; a surra de cinto que tomei porque comprei um pote de gel da marca "New Wave"; o dia em que "esqueceram" do meu aniversário e eu sumi (não aparecendo, consequentemente, na festa surpresa que pensaram em fazer para mim).

Ontem em uma conversa um amigo disse que estava triste. E respondi: faz bem. Você tem todo o direito de ficar triste quando quiser. As pessoas precisam de preto e branco, luz e sombra, claro e escuro. É tão insuportável uma pessoa cem por cento transbordando felicidade quanto o extremo depressivo. Para contrabalançar a alegria da infância é que existem traumas. A perda da avó, com sua mãe gritando e querendo pular no caixão. A saída do pai de casa. O irmão que quebra o braço, a irmã que toma um ponto debaixo do queixo. E a gente sem saber lidar com tudo aquilo.

Até que de repente chega, devagar, o equilíbrio. Para a vida, claro, dar uma balançada na corda e forçar uma meia-volta. Assim seguimos, eu e todos, rodopiando pratos. Porque além de pagar mico, viver é, um clichê para encerrar, cair do cavalo de quando em vez.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os desconhecidos

Penso, e às vezes faço qualquer reflexão sobre pessoas que eu deveria conhecer. Os conhecidos e amigos de amigos dos amigos que todos dizem combinar com você, e que, por (des)coincidências, nunca apareceram na sua frente. E seja por alguma parecença de linha de pensamento, semelhança física ou ainda por cisma de alguém, nasce uma interessante lista de ilustres desconhecidos que deixam a sua vida, aparentemente, "por completar".

Oficialmente parei de me preocupar com esses ditos quando pedi um certo alguém (que não me lê) de presente, e veio. Todos os gurus da autoajuda dizem para termos cuidado com o que pedimos. É verdade, tenha medo, muito medo, daquilo que pede. Pode acontecer e ser um problema maior.

Porém, como bom curioso, sei que existem por aí pelo menos três ou quatro sujeitos que são "a minha cara", outros que têm "um papo muito legal", que "você tem de sentar num bar pra tomar uma cerveja junto" e "vocês super combinam"... O de sempre, quem nunca ouviu?

Certa vez uma dessas pessoas de minha lista (que também não me lê) veio conversar. On-line, moramos em cidades diferentes. Provavelmente também eu estava na lista do lado de lá. Três minutos e acabou o assunto e ficou aquele silêncio de quem não sabe mais o que digitar para engatar o gancho de continuar conversa. Serviu, sim: para eu perder medo e preconceito e parar de achar que a criatura era por demais ensimesmada. Mas foi assim, por uma ação do outro lado, que realizei (de novo) que o tudo-a-ver dos outros não tem a ver com o meu. Ou talvez que o meu tudo-a-ver tenha de partir de mim antes de tudo.

Não que eu não acredite mais em amizades que poderiam vir a acontecer. Ou em afinidades. Penso que deixei de crer nos arranjamentos, sob qualquer aspecto. Não creio mais em amores ideais, em amigos ideais, no trabalho idealizado. Não acredito nem professo o cotidiano ideal, e me abstenho totalmente do conceito de se ser comum. Sempre serei do avesso e já fui trabalhar de pijama. O que não me faz nem mais nem menos medíocre.

Ao mesmo tempo tenho noção de que também sei ser pessoa difícil, principalmente no começo. Parte grande dos amigos me tomaram por antipático à primeira vista. Depois, com o tempo, amoleço. Parte da falta de empatia é com certeza responsabilidade minha.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Sabático

Estava lendo a revista Vida Simples desse mês, uma matéria sobre ano sabático. Para o desavisado de plantão, por mim a matéria teria começado desse jeito: ano sabático não é um ano em que a pessoa se dedica ao estudo e aperfeiçoamento da bruxaria. Muito menos aquele tempo que o iniciante do candomblé passa na camarinha. É simplesmente uma época em que o indivíduo dedica a si próprio, a um projeto de vida, a uma viagem longa ou até mesmo ao ócio. Um espaço de tempo para se voltar a novos projetos que não o trabalho cotidiano seria, talvez, a melhor definição.

A matéria diz que "um período sabático faz parte dos planos de muita gente, mas poucos são aqueles que o colocam em prática". Talvez porque, complemento, trocar o emprego fixo por um tempo para pensar em algo não necessariamente rentável esteja um pouco abaixo da capacidade financeira do cidadão médio brasileiro. Eu mesmo, 32 anos, brasileiro, sem filhos, retrógrado e reacionário, não me vejo "dando um tempo" no emprego para escrever um romance, por exemplo.

Mais interessante foi ver justamente livros dedicados ao período sabático. Fuja por um ano, Um tempo para crescer e deve haver mais literatura específica. Livro para tudo nunca falta. Só assusta um pouco pensar alguém que tira um período sabático para escrever sobre... sabático. Afinal, se o sabático não é dedicado ao ofício (também conhecido pela expressão trabalho), e se a escrita é um ofício, por vezes duro, inclusive, seria isso paradoxo ou não?

Esse blog não está em período sabático, quem o escreve muito menos. Vivo o famoso período pré-férias, o que significa que de sabática a vida não tem é nada. Trabalho sobra e parece que não deve faltar pelos próximos dias, meses, anos. Segundo a revista, férias não são período sabático. Férias, segundo o autor, também conhecido pelos pronomes "eu" ou "mim" (que procuro evitar ao máximo) são para descanso...

Durante a ausência (daqui) fiz o de sempre: comi, dormi, trabalhei, fui ao teatro e ao cinema, vi séries na tv. De novidade estreei em óperas e venho lendo um livro para o vestibular. Não sei se vou fazer a prova ainda e nem quero comentar muito, justo para evitar grandes expectativas. Na minha ausência andei tocando meu bonde e observando pessoas e inventando histórias. Para, inclusive, ter o que escrever nessas bandas de cá.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Orientações políticas

Uma das promessas que fiz para 2010 foi não comentar sobre o Big Brother e muito menos sobre política. O que em ano eleitoral é praticamente impossível, mas permaneço tentando. Até porque é máxima que religião, futebol e política não se discutem. E fim.

Porém quero abrir uma pequena exceção para dizer algumas coisas sobre política. Não para me posicionar sobre tal candidato, dizer que alguém é melhor ou pior, tampouco para contar em quem vou votar. Por sorte, no Brasil, declarado Estado Democrático de Direito desde 1988, o voto é secreto e podemos mudar de opinião até no dia da eleição. A única opinião formada que tenho a respeito das eleições de 2010 é de que o próximo presidente do Brasil, homem ou mulher, será alguém feio. E meus comentários sobre política vão um pouco além do feijão com arroz no qual diversos blogs e redes sociais devem se transformar a partir do fim da Copa do Mundo.

Em 2008, aqui em Belo Horizonte, tivemos uma campanha "desigual". Entre aspas. O candidato da situação, apoiado publicamente pela máquina estatal (prefeitura e governo), versus um "azarão" (entre aspas) com tendências populistas. Resumindo a ópera para quem não mora pelas bandas de cá, as eleições foram uma bela troca de ofensas de ambas as partes, uma disputa deselegante na qual as propostas dos candidatos importavam menos do que quem tinha o cacique (ou pinto) maior. Ganhou o candidato da situação.

O parágrafo acima é contestável até certo ponto. Dizer que a máquina administrativa não foi usada nas eleições de BH em 2008 é a mesma coisa que dizer que o céu é flicts. Não quero abrir precedentes para contra-argumentações, ou defesa de tal ou tal pessoa. Principalmente porque as eleições passaram e o prefeito eleito vem conseguindo, dia após dia, mostrar o que ele realmente é: um bosta (fosse 1970 eu seria investigado pelo DOPS). Para quem duvida, sugiro dar uma lida nesse blog. Detalhe: nem vou comentar (ainda) sobre o tanto de casa que passou a ser demolida após a posse do prefeito da união.

Mas voltemos ao fio da meada. Baseado na campanha que vivenciei por aqui, na cidade em que moro, percebi que falta uma coisa à grande maioria dos candidatos: etiqueta. Não estou dizendo que todo mundo para ser candidato deveria frequentar a Socila, e a minha postura de que deveria ter "teste de admissão" para candidato é altamente questionável, uma vez que excluiria os analfabetos e pessoas que não soubessem a tabuada. Porém eu acho (mesmo) que eleição se disputa com elegância, e que a vitória nas urnas deveria ser a celebração do bom combate entre ideias e ideais. Foi pensando nisso que resolvi propor, até porque não achei no Google, um pequeno Guia de boas maneiras para o candidato. Algo mais ou menos assim:

Prezado Candidato, seja muito bem-vindo às eleições deste ano! Torcemos por seu sucesso e confiamos em seu potencial! É a sua participação no pleito que torna possível o exercício da democracia e da cidadania no nosso país. Gostaríamos de lembrar que, para assegurarmos o direito pleno de todos os envolvidos na corrida eleitoral, é preciso que você obedeça a algumas pequenas regras:

1. Seja educado. Ideias brigam, pessoas não. Não esmurre, não bata, não chute a bunda do seu adversário. Nem de brincadeira.

2. Tome banho todos os dias, escove os dentes, use desodorante. Lembre-se: o corpo a corpo é fundamental na campanha.

3. Contrate um marqueteiro. Contrate também um fonoaudiólogo. Se tiver um pouco mais de dinheiro, um stylist também ajuda muito.

4. Economize nos santinhos, nos cartazes com a sua linda foto no poste, nos muros pichados. Se isso funcionasse, Santo Expedito e os skatistas da Praça Sete não perdiam uma.

5. Lembre-se: você tem (ou teve) mãe. Provavelmente tem família. Antes de dizer que o seu adversário é isso ou aquilo, pense se você ficaria confortável se alguém dissesse o mesmo da sua mãe.

6. Não prometa o que não tem condição de cumprir. Faça uma pesquisa e descubra as funções do cargo que você está disputando. Lembre-se: deputado não constrói estrada nem acaba com a fome no Vale do Jequitinhonha.

7. Não faça spam, não faça corrente, não entupa o e-mail do eleitor com as suas propostas e projetos. Existem métodos mais inteligentes do que isso. Volte ao item 3.

8. Não subestime seu adversário. Não o transforme em um bobo só para vencer a eleição. Seja íntegro e saiba ressaltar os seus pontos fortes. Se o marqueteiro insistir em fazer faixas dizendo que o adversário usa fraldão de velho, demita o marqueteiro.

9. Se eleito, você vai representar uma grande parcela da população que confiou em você. Lembre-se disso quando estiver por lá, e não apenas nas próximas eleições.

10. Em caso de derrota, aceite. Daqui a dois anos você pode concorrer de novo. Volte ao trabalho de cabeça erguida e pare de se lamentar.

Finalmente, não se esqueça: você está disputando um cargo de prestador de serviços à comunidade, com a pretensão de defender o interesse coletivo. A sua casa de praia não é interesse coletivo, mesmo que a sua família seja imensa. Lembramos que roubar, desviar dinheiro, fazer ato secreto, esconder dinheiro em meia, são desvios de decoro e podem vir a ser investigados.

No mais, boa sorte! Esperamos ter você conosco no ano que vem!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dez coisas

Quando comecei o texto anterior pensei fazer apenas uma introdução ao que realmente interessava. Porém o texto fluiu além da conta, e tive de dividir meu pensamento em partes. Então, prezado leitor, considere esse escrito como uma sequência da postagem logo abaixo, ok? Agradecido.

Ano passado ganhei um livro de listas: Os 10 mais. No site dá para o interessado ler algumas páginas da obra. Não vou entrar no mérito de quem tem prazer em fazer listas. Alguém que arruma a bagagem em meia hora (e leva metade da casa sempre, porque pode fazer frio) não faz listas quase nunca. Na verdade as listas que faço são quase sempre de metas a cumprir: anual (que, como disse em um texto anterior, funcionam) e, quando o trabalho aperta, de trabalho a ser feito durante o dia. Só. Lista de supermercado? Se em 2009 fiz três foi muita coisa.

De qualquer modo, é muito interessante ver o grande mercado das listagens. Veja que troquei o termo aqui, porque não me interessam, como disse, as listas. E sim o seu conteúdo. Uma procura básica no Buscapé mandou a lista de 37 (!) livros. Clique no link para ver tudo, aqui copio (e comento) o título de alguns:

1001 maravilhas naturais para ver antes de morrer (de tédio?); 1001 vinhos para beber antes de morrer (de cirrose?); 101 bares para beber antes de morrer (eu já fui a mais de 101 bares); 1000 lugares para conhecer antes de morrer (vem com um passaporte de companhia aérea?); 1001 comidas para provar antes de morrer (precisa mesmo?); 1001 filmes para ver antes de morrer (eu sei quem tem); 1001 discos para ouvir antes de morrer (procurando tem site para baixar todos).

Enfim. Coisa para fazer antes de morrer é literalmente o que não falta. O que pergunto, na verdade é: para quê? Qual vai ser a minha diferença no além-túmulo se eu tiver ido ou não a 1001 lugares, provado 1001 tipos diferentes de comida, fumado 1001 charutos e morrido de enfizema? Se eu for, talvez, a 980 dos lugares que o livro sugere, a minha vida não terá sido perfeita?

Listas de coisas a se fazer são meros reflexos da pressão que a sociedade atual exerce sobre o indivíduo. Um ser humano ordinário, classe média, trabalhando 40h por semana com um salário razoável, a menos que ganhe na Mega Sena e mude de classe social, nunca iria dar conta de viajar para 1001 lugares diferentes (1002 se contarmos aquela fazenda maravilhosa que só você conhece e, claro, não está na lista). Pelo simples fato de se ser "humano" e de ter "contas a pagar". As listas então são apenas elementos de um desejo decorativo. Existem não para ser feitas, e sim para alimentar uma imensa sensação de frustração e incompletude.

Preferível ater-me a metas mais significativas, e plausíveis, e guardar para o planejamento algo mais interessante que viajar a 1001 lugares em clima de excursão. Por exemplo: passar, como fez uma amiga, seis meses na França. Morar lá, viver um tempo. Sou da turma dos que não fizeram intercâmbio no colégio. Vou voltar tendo conhecido um só lugar, porém com certeza mais feliz do que se tivesse pego a excursão CVC Europa completa em 15 dias. Se é para sonhar, que eu sonhe com algo confortável.

Pensando assim resolvi, paradoxalmente, elaborar a segunda lista desse blog. Duas listas em um ano, para quem não faz listas, amedrontam. Segue então, a minha lista de 10 coisas que não quero fazer na vida (com comentários):

1. Viajar para a Índia. Ok, todo mundo tem um amigo que foi à Índia e achou lindo. Deve ser, não duvido. Para os outros. Eu sou muito pró-conforto e antissocial para me meter em um passeio desses. O mesmo se aplica a lugares como Machu Picchu, Marrocos, Serra Pelada e congêneres.

2. Comer cérebro de macaco (ou qualquer iguaria exótica do nível, como gafanhoto, olho de cabra, carne de cachorro etc.). A menos que eu esteja ilhado e que seja a única opção de comida, graças à globalização sempre haverá um Mc Donald’s. Em tempo: já comi escargot e carne de tatu. Bons, os dois.

3. Fumar ópio. Parei de fumar toda e qualquer coisa. O mesmo se aplica a orégano, sálvia, haxixe, vinho de garrafão e qualquer droga que não tenha experimentado na faculdade. Foi-se o tempo, meu barato agora é fluoxetina e diazepan. Só.

4. Comer baiacu. Está em classe separada das comidas exóticas porque teoricamente é um peixe como outro qualquer. Com o diferencial de que um pedaço pode matar. E quer maneira mais boba de morrer do que comendo um peixe?

5. Brincar de roleta russa. Pelos mesmos motivos acima, apesar de eu achar bala na cabeça uma morte mais digna que envenenamento de peixe. Mais suja também, mas isso é problema para a Sunshine Cleaning.

6. Ir pescar no Pantanal. Qualquer atividade que envolva as palavras "acampamento", "céu aberto" e "mosquito" não foi pensada para mim. Incluo na lista aqueles acampamentos de treinamento de guerra e o falecido programa No limite.

7. Zorbing. Não sabe o que é? Vá descobrir.

8. Comprar um trailer. Eu nunca compraria um trailer, eu nunca viajaria em um trailer, eu nunca dormiria em um trailer, eu nunca moraria em um trailer. A menos que esteja passando necessidade. Mas acho que prefiro morar embaixo de uma ponte. Pelo menos é mais Brasil.

9. Abrir uma empresa. Não nasci para administrar o meu dinheiro, que dirá cuidar de funcionário. Meu sonho sempre foi receber, entregar a grana na mão de alguém e dizer "tome conta". Desde que eu tenha um cartão de crédito ilimitado e nenhuma conta a pagar, perfeito.

10. Ter uma fazenda. Apesar de estar no sangue, virei urbano demais para me ver no interior, umas vaquinhas, umas galinhas, uma casa no campo onde eu possa compor muitos rocks rurais. Prefiro guardar meus (poucos) amigos, meus (muitos) discos e livros aqui por perto.

Deveria ter sido incluído o item 11: parir. Mas isso é inerente a todo indivíduo do sexo masculino, e só iria consumir espaço em um texto que acabou ficando grande demais e que deveria também ter sido cortado em duas partes.