Blogs. Lugares bons para se permanecer exposto a quem não quer, e esconder os escritos de quem realmente interessa. Lembro que quando comecei meu antigo blog de regime – já comentei isso antes – passeei por outros similares e vi que tudo parecia livro de autoajuda. Eu hoje pesei, emagreci 100 gramas, e rios de comentários elogiando. Eu hoje estou triste, porque pesei (de novo) e engordei 200 gramas, e rios de comentários dando força. Lembro bem que tive de parar de ler aqueles blogs para não ter bulimia nervosa, de tanto enjoo que me deu. E para não escrever para as mulheres pelo amor de deus não se pesem de 10 em 10 minutos.
Optei por descrever fatos: fazer regime é uma porcaria, chocolate é bem mais legal mas como era ou emagrecer ou morrer e eu estava gostando de viver resolvi fazer dieta. Passou? Não, gente como eu vai viver de regime, mas agora importa menos e quero pensar coisas além. Ontem a intenção era tentar ser mais leve. Textualmente falando.
O que não vai ocorrer por agora. Portanto, se você quer mensagens positivas e coisas fofa, procure por fotos da Anne Guedes, clicando nesse link.
Limites e traumas. Por volta dos 17 anos cometi um grave erro. Tenho, desde 1995, uma conta no Banco do Brasil. Na época com um limite de R$500 que, por conta de um cheque pré-datado fora de hora, mais um depósito que não foi feito no dia certo, estourou em um real. Isso, eu ultrapassei o limite do cheque especial em R$1. Foi esse o erro? Não. E se eu contar que uma tia minha, na época, trabalhava no banco, ficou sabendo por sei lá que motivo, e num aniversário, festa de família, me passou um sabão em público porque eu passei do limite do cheque? E se eu contar que o meu erro foi não ter ido ao banco na segunda-feira seguinte denunciar? Pois é.
Esse erro de não ter denunciado a minha tia ao banco custou caro. Dá-se a liberdade, hoje eles chegam e cortam um pedacinho, amanhã arrancam seu braço e reclamam depois de arrancar sua cabeça fora.
Moro em BH desde 1992, e sempre tive de ceder meu quarto para uma visita: essa mesma tia. Ela chegava, eu tinha de sair do quarto. Todos os outros não, dormiam (dormem) na sala... Durante uma crise de família (coisas do ápice da decadência pela qual passamos fim dos anos 1990), essa mesma tia chegou a gritar comigo que "os homens da família não serviam pra nada e só faziam coisa errada". Ponha "dinheiro" no contexto da afirmativa. Nesse dia tive meu primeiro ato de revolta (lembrei imediatamente da cena do banco), e fui embora para a casa da minha mãe, outra cidade, sem avisar. Mas só. Puseram panos quentes e deu-se como se nada tivesse acontecido.
A coisa começou a ficar "menos simples" quando, uma vez, eu estava sozinho aqui na cidade (para quem não sabe moramos eu e outra tia, dividimos as contas, mas a família tem a chave de casa) e eu soube en passant que essa mesma tia (sim, é a mesma mesmo – a que, como minha mãe fala, construiu uma casa imensa sem quarto de hóspedes) viria para Belo Horizonte. Alguém me avisou? Não. Deixei o seguinte comentário: que ela chegue comigo fora de casa. Porque a porta estaria trancada a ferro por dentro e, se alguém tentasse entrar, eu ia chamar a polícia. Meia hora depois recebi um cordial telefonema avisando que visitas iriam chegar.
Nada contra visitas, a propósito. Adoro. Muito principalmente quando elas avisam que virão e dá tempo de arrumar a casa, colocar alguma comida na geladeira, fazer um bolo, essas coisas que só quem é de Minas vai entender.
A falta de limites durou até janeiro de 2009 (estando eu, portanto, aos 31 anos). Cheguei do cinema e estavam, minha tia e a filha dela, dormindo no meu quarto. Assim: fui pra rua, voltei, tinha gente no meu quarto. Não sei se foi a idade, não sei se era a primeira semana do regime, as dores no corpo da academia, o fato de eu estar com cem quilos, ou quinze anos de revolta no meio do caminho. Liguei a televisão, duas da manhã, bem alto. Bem, bem alto. Comecei a gritar, bater porta, como se estivesse doido ou bêbado (não bebi, era sessão meia noite de filme e eu tinha começado a tomar fluoxetina já). Literalmente urrava. Até que ela levantou, tirou a filha e saiu do quarto, e fui dormir (metaforicamente, não preguei o olho de tanto ódio) na minha cama.
Dia seguinte meio que fui "forçado" a pedir desculpas. Mas desde então meu quarto é meu, só meu, mesmo agora eu dormindo mais fora de casa do que nela. Demorou tempo demais para eu começar a justificar que não sou como "os homens da família" e não tenho mais 14 anos há muito tempo. Hoje a gente se respeita. Como comentei com uma amiga ontem, lá em casa não somos o tipo de pessoa que fica anos sem se falar por nada. A conversa com ela gerou todo esse texto levíssimo de hoje. Que por sua vez me lembrou de uma coisa: eu preciso ensinar a alguém, do meu jeito, que é preciso, sim, respeitar os mais velhos e que não tem jeito de viver sem engolir um sapo ou dois. Mas que não devemos nunca, nunca mesmo, deixar de denunciar, na hora, se alguém quebrar seu sigilo bancário numa festa.
* O título do post é inspirado no filme do Carlos Saura (1977), que por sua vez tem o título baseado na expressão cría cuervos y te sacarán los ojos. Nada mais adequado. Afinal, "não entendo por que dizem que a infância é a época mais feliz na vida de alguém"...
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Para fazer sucesso: restart
Coisa que faço pouco, pouquíssimo, é depois de um tempo reler o que escrevi. Geralmente digito, corrijo o texto, corto, reescrevo o quanto quero e publico. Publicou? Corro uma breve leitura para ver se não passou algum erro de digitação e – principalmente – se tem algum problema com as aspas [coisa de quem escreve no Word: quando passamos para o blogger as aspas tipográficas ficam horríveis, aí eu troco tudo por aspas normais]. Ler de novo, meses depois, não. Geralmente tenho vergonha dos meus textos.
Só que: 1. Cismei [isso é cisma, ninguém me cobre nada] de juntar algumas coisas que tenho por aí e ver se dá alguma encadernação e, com isso, 2. Fui reler escritos aqui do blog. Cheguei a uma conclusão aparentemente óbvia: estou sério demais. Não que eu tenha de parar um linha de pensamento para contar piada. Não que eu saiba contar piada. Duas coisas que nunca me deixem fazer em festa são contar piada e cantar. A menos que precise terminar o evento mais cedo.
Sério demais por uma pá de fatores, desde o trabalho (sério) até o dia a dia (mais sério). Verdade seja dita, minha cara amarrada acabou passando para cá, disfarçada sob uma pretensão de seriedade. Um dos elogios que recebi, esse não esqueço, saiu naturalmente em uma mesa quando disseram, ainda nos tempos do blog de regime, que pareciam estar me ouvindo falar enquanto liam. Lá, mais que cá, os textos eram bastante espontâneos. Até porque não dá para não ser espontâneo quando se fala do trauma que é um peitoral voador.
Enfim. A conclusão é essa: estou sério demais. E quando fico sério demais fico pseudo demais. Pseudo inteligente, pseudo interessante, pseudo qualquer coisa menos eu mesmo, o que é, rasteiramente falando, ruim. Então decidir dar um pequeno reboot e iniciar tudo de novo, de outra forma. Não vou apagar texto nenhum, fica tudo aí, porém quero deixar de lado preciosismo, perfeccionismo, ismos, e essas coisas que a gente põe no texto e dá uma maquiada para os outros lerem e acharem até que você é capaz de pensar.
O que está escrito daí abaixo não é um monte de mentiras. Só é, vamos dizer assim, algum tipo de reflexão que fez sentido naquele momento mas que, se eu fosse seguir por esse caminho, ia ficar mais rabugento e mau humorado do que já sou. De Groucho Marx já basta a minha pessoa. E de pensamento duro basta aquele de todo dia. Quero tentar algo mais leve, se é que ainda dou conta. Não, necessariamente, descomprometido.
Para [re]começar nada melhor que me [re]apresentar, correto? Então segue minha nova [re]introdução, especialmente para o Qualquer tempo (que chique):
Olá! Eu sou o Marcelo. Antes de qualquer coisa você precisa saber que sou um babaca e que deixo tudo pela metade. Tipo a faculdade de comunicação, nunca acabei. Ou um conto que um dia comecei e está lá parado esperando encerrar [e a Rosi nesse momento me escreve querendo saber quando é que vou terminar a diaba da história]. Falo palavrão mais que devo. Tenho medo de panela de pressão, de avião e de rato. Nasci em 1977 e não sei a diferença entre oitava série e sétimo ano. Não tenho filhos, mas devia – um dia explico o porquê. Sou um fútil [e a Rosi vai me dar uma ferroada no gtalk], consumista, faço coleção de livro e DVD [de série, não de filme] mas não leio nem assisto por falta de tempo. Tenho duas cachorras e minha maior preocupação é que uma está com manchas cinzas nos olhos. Tenho contas a pagar. Atualmente sou game addicted – eu e um monte de donas de casa americanas. Super me dou bem com empregada doméstica, motorista e garçom. Não acredito em duendes. Já bebi, já fumei, já parei, já voltei, já parei de novo. Já fui gordo, já fui magro, hoje não sei bem onde estou. No mais eu gosto de falar besteira, mas quase sempre numa mesa de bar eu fico calado. E muito importante: fui ator, vou ao teatro, mas prefiro cinema.
Por enquanto é só.
Só que: 1. Cismei [isso é cisma, ninguém me cobre nada] de juntar algumas coisas que tenho por aí e ver se dá alguma encadernação e, com isso, 2. Fui reler escritos aqui do blog. Cheguei a uma conclusão aparentemente óbvia: estou sério demais. Não que eu tenha de parar um linha de pensamento para contar piada. Não que eu saiba contar piada. Duas coisas que nunca me deixem fazer em festa são contar piada e cantar. A menos que precise terminar o evento mais cedo.
Sério demais por uma pá de fatores, desde o trabalho (sério) até o dia a dia (mais sério). Verdade seja dita, minha cara amarrada acabou passando para cá, disfarçada sob uma pretensão de seriedade. Um dos elogios que recebi, esse não esqueço, saiu naturalmente em uma mesa quando disseram, ainda nos tempos do blog de regime, que pareciam estar me ouvindo falar enquanto liam. Lá, mais que cá, os textos eram bastante espontâneos. Até porque não dá para não ser espontâneo quando se fala do trauma que é um peitoral voador.
Enfim. A conclusão é essa: estou sério demais. E quando fico sério demais fico pseudo demais. Pseudo inteligente, pseudo interessante, pseudo qualquer coisa menos eu mesmo, o que é, rasteiramente falando, ruim. Então decidir dar um pequeno reboot e iniciar tudo de novo, de outra forma. Não vou apagar texto nenhum, fica tudo aí, porém quero deixar de lado preciosismo, perfeccionismo, ismos, e essas coisas que a gente põe no texto e dá uma maquiada para os outros lerem e acharem até que você é capaz de pensar.
O que está escrito daí abaixo não é um monte de mentiras. Só é, vamos dizer assim, algum tipo de reflexão que fez sentido naquele momento mas que, se eu fosse seguir por esse caminho, ia ficar mais rabugento e mau humorado do que já sou. De Groucho Marx já basta a minha pessoa. E de pensamento duro basta aquele de todo dia. Quero tentar algo mais leve, se é que ainda dou conta. Não, necessariamente, descomprometido.
Para [re]começar nada melhor que me [re]apresentar, correto? Então segue minha nova [re]introdução, especialmente para o Qualquer tempo (que chique):
Olá! Eu sou o Marcelo. Antes de qualquer coisa você precisa saber que sou um babaca e que deixo tudo pela metade. Tipo a faculdade de comunicação, nunca acabei. Ou um conto que um dia comecei e está lá parado esperando encerrar [e a Rosi nesse momento me escreve querendo saber quando é que vou terminar a diaba da história]. Falo palavrão mais que devo. Tenho medo de panela de pressão, de avião e de rato. Nasci em 1977 e não sei a diferença entre oitava série e sétimo ano. Não tenho filhos, mas devia – um dia explico o porquê. Sou um fútil [e a Rosi vai me dar uma ferroada no gtalk], consumista, faço coleção de livro e DVD [de série, não de filme] mas não leio nem assisto por falta de tempo. Tenho duas cachorras e minha maior preocupação é que uma está com manchas cinzas nos olhos. Tenho contas a pagar. Atualmente sou game addicted – eu e um monte de donas de casa americanas. Super me dou bem com empregada doméstica, motorista e garçom. Não acredito em duendes. Já bebi, já fumei, já parei, já voltei, já parei de novo. Já fui gordo, já fui magro, hoje não sei bem onde estou. No mais eu gosto de falar besteira, mas quase sempre numa mesa de bar eu fico calado. E muito importante: fui ator, vou ao teatro, mas prefiro cinema.
Por enquanto é só.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Das pequenas mortes
Em algum lugar li, talvez tenha ouvido, que só se vive até a hora do parto. A partir do momento em que nascemos passamos a morrer pouco a pouco. Não deixa de ser verdade. A figura da morte costura nossos rastros e, independente do quão enviesado seja o caminho, chega-se a ela inevitavelmente.
Plagiando o compositor, não tenho medo da morte. Mas sim medo de morrer. Talvez pela dor, se é que dói, ou pela certeza do definitivo. Se me for dada opção de escolha quero morrer louco, sem nem saber qual o meu nome, falando um monte de palavrão em um corredor de hospital, enrolado numa imensa colcha de piquê.
O título acima diz das pequenas mortes. Até agora só falei da morte grande, a final, e não é esse meu propósito. O texto deveria ter começado pela seguinte epígrafe, um escrito para o twitter que não publiquei por achar depressivo:
"Há 21 anos minha avó morreu do coração. Perguntei se as pessoas não podiam ficar mais antes de ir. Daí descobri que existe o câncer."
Fato: tenho vindo de uma sequência de mortes, efeito dominó. Por ser de família grande, pessoas mais velhas, algumas delas adoecidas num mesmo tempo; mas não por susto, esse ano não aconteceu acidente nenhum. Eram mortes previsíveis, nem por isso menos doídas. Perdi meu padrinho, por coincidência meu avô, figura semelhante por demais a mim. Mais que o meu próprio pai. Por isso a dificuldade em deixar passar. Não saí ileso, porém até hoje não chorei. Então não quero falar sobre isso enquanto não chorar de verdade.
Quero, sim, falar das pequenas mortes. Morre-se a todo dia, desde o ato de se lavar. Saem células mortas, já ocupadas pelas mais novas e vivas. Fios de cabelo presos na escova, no pente. Bactérias na escova de dentes, nossas partes. Morre-se ao fumar, também ao caminhar, pela simples ação do vento. Vamos morrendo para nós mesmos todos os dias.
Ao mesmo tempo morremos para os outros. Aqueles que se vão, passageiros como nós os somos. Aquele que dorme e não sabe se acorda. Aquele que se matou no exato momento em que escrevo, levando consigo todo um seu mundo do qual não mais faço parte. Ao morrer o nosso universo conhecido se acaba, e com ele todo o resto. Da menor importância, um fim de mundo a cada corpo que expira.
Morremos e matamos a quem nos quer bem. Uma palavra ríspida é ato de morte tão cruel quanto um sorriso. Não se engane, sorrisos são cruéis, fatais, amorais. Principalmente os não espontâneos, os que mascaram o sentimento real e são usados cotidianamente em casa, no escritório, na cozinha e no banheiro. O sexo, gerador de vida, é, por definição, uma chacina. Quantas células morrem para que apenas uma tenha sucesso...
Vivemos cercados, sitiados, pelas pequenas mortes. Ainda assim vivos. Cientes do que nos aguarda e, meu caso, com pressa nenhuma de chegar lá. Sem paranoias, um certo medo. Talvez o bom no viver seja justo isso: a ciência de que um dia vamos embora, não se sabendo exatamente quando. É improvável, teoricamente sim é possível, que um piano desabe na minha cabeça amanhã ao sair de casa. Mas quem garante?
As pequenas mortes, nossas, dos outros, da folha que cai da árvore, mandam dizer que estamos vivos sem saber quanto tempo resta. Mandam dizer que o nosso universo é perecível, sim, e por isso deve ser utilizado. Mas sem urgência. Deixemos urgências e emergências para o plantão médico.
... Assim encerro os meus "das". Se você, leitor, obedeceu ao guia que deixei no texto da interpretação, volte e releia todas as metáforas. Se, por outro lado, passeou buscando entrelinhas – e as encontrou – tente reler tudo de forma simples e direta. Porque, no fim, importa não o sentido que imponho aqui, e sim o quanto dele chega em seus olhos.
Plagiando o compositor, não tenho medo da morte. Mas sim medo de morrer. Talvez pela dor, se é que dói, ou pela certeza do definitivo. Se me for dada opção de escolha quero morrer louco, sem nem saber qual o meu nome, falando um monte de palavrão em um corredor de hospital, enrolado numa imensa colcha de piquê.
O título acima diz das pequenas mortes. Até agora só falei da morte grande, a final, e não é esse meu propósito. O texto deveria ter começado pela seguinte epígrafe, um escrito para o twitter que não publiquei por achar depressivo:
"Há 21 anos minha avó morreu do coração. Perguntei se as pessoas não podiam ficar mais antes de ir. Daí descobri que existe o câncer."
Fato: tenho vindo de uma sequência de mortes, efeito dominó. Por ser de família grande, pessoas mais velhas, algumas delas adoecidas num mesmo tempo; mas não por susto, esse ano não aconteceu acidente nenhum. Eram mortes previsíveis, nem por isso menos doídas. Perdi meu padrinho, por coincidência meu avô, figura semelhante por demais a mim. Mais que o meu próprio pai. Por isso a dificuldade em deixar passar. Não saí ileso, porém até hoje não chorei. Então não quero falar sobre isso enquanto não chorar de verdade.
Quero, sim, falar das pequenas mortes. Morre-se a todo dia, desde o ato de se lavar. Saem células mortas, já ocupadas pelas mais novas e vivas. Fios de cabelo presos na escova, no pente. Bactérias na escova de dentes, nossas partes. Morre-se ao fumar, também ao caminhar, pela simples ação do vento. Vamos morrendo para nós mesmos todos os dias.
Ao mesmo tempo morremos para os outros. Aqueles que se vão, passageiros como nós os somos. Aquele que dorme e não sabe se acorda. Aquele que se matou no exato momento em que escrevo, levando consigo todo um seu mundo do qual não mais faço parte. Ao morrer o nosso universo conhecido se acaba, e com ele todo o resto. Da menor importância, um fim de mundo a cada corpo que expira.
Morremos e matamos a quem nos quer bem. Uma palavra ríspida é ato de morte tão cruel quanto um sorriso. Não se engane, sorrisos são cruéis, fatais, amorais. Principalmente os não espontâneos, os que mascaram o sentimento real e são usados cotidianamente em casa, no escritório, na cozinha e no banheiro. O sexo, gerador de vida, é, por definição, uma chacina. Quantas células morrem para que apenas uma tenha sucesso...
Vivemos cercados, sitiados, pelas pequenas mortes. Ainda assim vivos. Cientes do que nos aguarda e, meu caso, com pressa nenhuma de chegar lá. Sem paranoias, um certo medo. Talvez o bom no viver seja justo isso: a ciência de que um dia vamos embora, não se sabendo exatamente quando. É improvável, teoricamente sim é possível, que um piano desabe na minha cabeça amanhã ao sair de casa. Mas quem garante?
As pequenas mortes, nossas, dos outros, da folha que cai da árvore, mandam dizer que estamos vivos sem saber quanto tempo resta. Mandam dizer que o nosso universo é perecível, sim, e por isso deve ser utilizado. Mas sem urgência. Deixemos urgências e emergências para o plantão médico.
... Assim encerro os meus "das". Se você, leitor, obedeceu ao guia que deixei no texto da interpretação, volte e releia todas as metáforas. Se, por outro lado, passeou buscando entrelinhas – e as encontrou – tente reler tudo de forma simples e direta. Porque, no fim, importa não o sentido que imponho aqui, e sim o quanto dele chega em seus olhos.
Das passagens
Era ainda a primeira editora na qual trabalhei quando ouvi falar a primeira vez sobre o livro das passagens de Walter Benjamin. Livro que, impresso, foi parar nas lojas apenas em 2006, comigo já em transição entre o segundo e o atual terceiro emprego registrado na carteira de trabalho. Sou dos que duram na mesa de trabalho.
O título das passagens (no original "Passagens Parisienses", acabou saindo no Brasil apenas como "Passagens" mesmo) sempre me intrigou. O que seriam as tais passagens que precisavam de mais de mil páginas e não ficaram prontas, o homem morreu antes? Pois, claro, o livro trata da arquitetura de Paris – o que eu não sabia na época – e não, como supus, de uma análise filosófica de passagens da Bíblia.
Sim. Eu tenho o direito de interpretar um título como bem entender e, convenhamos, o termo "passagens" é bastante amplo e comporta significados diversos.
Fiquemos, por ora, na arquitetura. Da minha janela, na hora que escrevi esse texto em meu caderno, dava para ver uma ponte. Uma passagem. Que liga o centro da cidade ao bairro da Floresta. Por ela os carros, e as pessoas, passam.
As pessoas passam.
As pessoas passam, repito uma terceira vez. E quem me conhece sabe que vejo isso – essas palavras – como mots de ma vie. Não trato aqui da morte. Não me sinto maduro o bastante para analisar o efeito recente desse tipo de passagem na minha vida. Trato da morte depois, em um texto que vem sendo ruminado em minha cabeça há mais de um mês.
As pessoas passam porque é natural o ato de passar. Os amigos de hoje não são os mesmos de ontem e (muitos deles) não serão os mesmos de amanhã. Não há qualquer garantia de que eu vá jogar damas no asilo com meu colega de infância. Até pode acontecer, mas aí é destino.
Todos os dias "passamos" por rostos desconhecidos quando atravessamos a rua. Com a rotina do trabalho, acabamos passando por mais de dois rostos comuns cotidianamente, costumeiramente. Rostos que, apesar de conhecidos, são passageiros como nós mesmos os somos. Passageiros impermanentes na essência.
A consciência de que as pessoas passam é premissa importante para a prática do desapego. Não fui convidado para tal festa... Qual o problema? Não vejo mais aquele grande amigo... Quais interesses mudaram? E em definitivo o que realmente importa?
As passagens também retêm, por vezes. Por vezes as pessoas param. Sem querer. Por querer. Não querendo. E, inexoravelmente (aqui, e somente aqui, falo de morte), passam de vez. Importa, no fim, os traços e os rastros da passagem das pessoas por sua ponte. O valor que estas agregam a você enquanto passagem.
E importa, também, saber a hora de "deixar ir", de "deixar fluir" o ciclo (o trânsito?). Até porque, enquanto passagem, existe sempre a possibilidade de retorno. Nem que, antes, tenha sido preciso dar uma volta no mundo.
* Para as pessoas na minha ponte. As que estão e as que virão. As que passaram... bem, elas passaram.
O título das passagens (no original "Passagens Parisienses", acabou saindo no Brasil apenas como "Passagens" mesmo) sempre me intrigou. O que seriam as tais passagens que precisavam de mais de mil páginas e não ficaram prontas, o homem morreu antes? Pois, claro, o livro trata da arquitetura de Paris – o que eu não sabia na época – e não, como supus, de uma análise filosófica de passagens da Bíblia.
Sim. Eu tenho o direito de interpretar um título como bem entender e, convenhamos, o termo "passagens" é bastante amplo e comporta significados diversos.
Fiquemos, por ora, na arquitetura. Da minha janela, na hora que escrevi esse texto em meu caderno, dava para ver uma ponte. Uma passagem. Que liga o centro da cidade ao bairro da Floresta. Por ela os carros, e as pessoas, passam.
As pessoas passam.
As pessoas passam, repito uma terceira vez. E quem me conhece sabe que vejo isso – essas palavras – como mots de ma vie. Não trato aqui da morte. Não me sinto maduro o bastante para analisar o efeito recente desse tipo de passagem na minha vida. Trato da morte depois, em um texto que vem sendo ruminado em minha cabeça há mais de um mês.
As pessoas passam porque é natural o ato de passar. Os amigos de hoje não são os mesmos de ontem e (muitos deles) não serão os mesmos de amanhã. Não há qualquer garantia de que eu vá jogar damas no asilo com meu colega de infância. Até pode acontecer, mas aí é destino.
Todos os dias "passamos" por rostos desconhecidos quando atravessamos a rua. Com a rotina do trabalho, acabamos passando por mais de dois rostos comuns cotidianamente, costumeiramente. Rostos que, apesar de conhecidos, são passageiros como nós mesmos os somos. Passageiros impermanentes na essência.
A consciência de que as pessoas passam é premissa importante para a prática do desapego. Não fui convidado para tal festa... Qual o problema? Não vejo mais aquele grande amigo... Quais interesses mudaram? E em definitivo o que realmente importa?
As passagens também retêm, por vezes. Por vezes as pessoas param. Sem querer. Por querer. Não querendo. E, inexoravelmente (aqui, e somente aqui, falo de morte), passam de vez. Importa, no fim, os traços e os rastros da passagem das pessoas por sua ponte. O valor que estas agregam a você enquanto passagem.
E importa, também, saber a hora de "deixar ir", de "deixar fluir" o ciclo (o trânsito?). Até porque, enquanto passagem, existe sempre a possibilidade de retorno. Nem que, antes, tenha sido preciso dar uma volta no mundo.
* Para as pessoas na minha ponte. As que estão e as que virão. As que passaram... bem, elas passaram.
Da interpretação
Para começar como todo mineiro, um caso. Era 1998, não sei mais precisar o mês, quando no meu trabalho pediram para eu fazer uma capa de livro baseada nos bordados de João Cândido Felisberto, o "Almirante Negro" da Revolta da Chibata, que bordava nos tempos livres. Simples assim: peguei uma foto de um pano de prato, tratei para que ela ficasse em tons de azul claro (azul que, vim a saber depois, é sempre a primeira cor escolhida por quem não sabe o que vai fazer), encaixei no projeto gráfico preexistente e fim. Capa montada.
O autor viu a tal da capa (que foi parar até na revista Veja – em um tempo no qual eu me importava com isso), e – disseram – ficou muito emocionado. Disseram depois, também, que eu, capista, queria transmitir tal e tal coisa com a capa, que a delicadeza do bordado, que a linguagem, blá-blá-blá... Tudo mentira. Eu não queria “dizer” nada com aquilo. Só trabalhei em cima de um material que me deram. Sem intenção alguma de produzir um sentido que transcendesse a imagem ali exposta. A tal capa, para mim, é, foi e será uma foto de pano de prato. Sem mais.
Esse caso específico me leva a pensar nas aulas de literatura. Aquelas. Drummond escreveu que "tinha uma pedra no meio do caminho". O povo entendeu tudo e mais um pouco. Que ele tinha brigado com a esposa, que não estava satisfeito com a vida, que queria causar um grande falatório com o tal poema. Pois bem, senhores, para mim Drummond estava andando na rua, tropeçou, não tinha mais o que fazer da vida naquela hora e decidiu escrever um poema para a tal pedra. "Ah mas você está reduzindo muito a sua visão frente o grande poeta que Drummond foi." Talvez. Por sorte, na aula de literatura, nunca me pediram para interpretar Drummond. Mário de Andrade uma vez e, no salto dos meus então 15 anos, fiz uma crítica descendo a lenha em "Amar, verbo intransitivo" (que odiei, claro). Não tirei zero, lembro, mas tenho certeza de que se fosse Drummond e a sua pedra eu teria ficado de recuperação.
Enfim... Onde quero exatamente chegar com isso? Ao ponto mais simples de todos: na maior parte das vezes o que escrevo aqui é para ser lido tal como escrito, sem entrelinhas. Não produzo literatura – não aquela das aulas de colégio. Dos textos mais perfeitos para mim é receita de bolo. Dois ovos, farinha, leite, fermento e forno. Sem margem a "o que ele quer dizer isso". Receita de bolo e rótulo de embalagem.
Então, prezado leitor, quase sempre (reservo-me o direito das metáforas), o que está anotado aqui deve ser lido de forma corriqueira, como quem lê uma receita. Minhas dores, crenças, desafetos e lamentos quase nunca chegam emoldurados ou com passe-partout. E essa afirmativa é – e será daqui para frente – importantíssima. Entenda esse texto (eu, o autor, veementemente sugiro) como um guia de leitura do que está por vir.
Porque, como sempre, o que deveria ser um "parágrafo inicial" tomou vida própria. E encerro por hora para não ficar grande demais.
O autor viu a tal da capa (que foi parar até na revista Veja – em um tempo no qual eu me importava com isso), e – disseram – ficou muito emocionado. Disseram depois, também, que eu, capista, queria transmitir tal e tal coisa com a capa, que a delicadeza do bordado, que a linguagem, blá-blá-blá... Tudo mentira. Eu não queria “dizer” nada com aquilo. Só trabalhei em cima de um material que me deram. Sem intenção alguma de produzir um sentido que transcendesse a imagem ali exposta. A tal capa, para mim, é, foi e será uma foto de pano de prato. Sem mais.
Esse caso específico me leva a pensar nas aulas de literatura. Aquelas. Drummond escreveu que "tinha uma pedra no meio do caminho". O povo entendeu tudo e mais um pouco. Que ele tinha brigado com a esposa, que não estava satisfeito com a vida, que queria causar um grande falatório com o tal poema. Pois bem, senhores, para mim Drummond estava andando na rua, tropeçou, não tinha mais o que fazer da vida naquela hora e decidiu escrever um poema para a tal pedra. "Ah mas você está reduzindo muito a sua visão frente o grande poeta que Drummond foi." Talvez. Por sorte, na aula de literatura, nunca me pediram para interpretar Drummond. Mário de Andrade uma vez e, no salto dos meus então 15 anos, fiz uma crítica descendo a lenha em "Amar, verbo intransitivo" (que odiei, claro). Não tirei zero, lembro, mas tenho certeza de que se fosse Drummond e a sua pedra eu teria ficado de recuperação.
Enfim... Onde quero exatamente chegar com isso? Ao ponto mais simples de todos: na maior parte das vezes o que escrevo aqui é para ser lido tal como escrito, sem entrelinhas. Não produzo literatura – não aquela das aulas de colégio. Dos textos mais perfeitos para mim é receita de bolo. Dois ovos, farinha, leite, fermento e forno. Sem margem a "o que ele quer dizer isso". Receita de bolo e rótulo de embalagem.
Então, prezado leitor, quase sempre (reservo-me o direito das metáforas), o que está anotado aqui deve ser lido de forma corriqueira, como quem lê uma receita. Minhas dores, crenças, desafetos e lamentos quase nunca chegam emoldurados ou com passe-partout. E essa afirmativa é – e será daqui para frente – importantíssima. Entenda esse texto (eu, o autor, veementemente sugiro) como um guia de leitura do que está por vir.
Porque, como sempre, o que deveria ser um "parágrafo inicial" tomou vida própria. E encerro por hora para não ficar grande demais.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ser feliz
Das coisas que gosto de fazer é passear pelas bancas de revistas e olhar as capas. Raramente compro alguma coisa, mas capa em banca é algo que me atrai desde criança. Lembro da capa da primeira Criativa, ainda com páginas destacáveis para se colocar em um fichário: uma mulher comendo uma fatia de melancia.
Independente do meu gosto, leio capa de revista principalmente para acompanhar novela. Não vejo um capítulo de nada mais, sei bem quem faz o quê só lendo manchete. Pulo a parte das revistas de regime – elas nunca mudam, tem sempre alguém ou enrolado na fita métrica ou segurando uma calça modelo Itu –, das revistas exclusivamente para o público feminino – com guia de sexo lacrado que ensina a encerar um chão como ninguém – e as revistas de mulher pelada.
Chego, claro, aos periódicos informativos semanais. A sociedade em si é meio que regida por um termômetro emocional bastante interessante, que pode ser medido por essas capas. É tragédia mundial? Toda revista abre com algum flagelado ou cena de destruição. Campanha política mostra as figuras e os ataques de sempre, no carnaval um escândalo qualquer e por aí vai.
Interessante, contudo, não é a medição da temperatura nacional em épocas de comoções em massa, mas sim nos períodos considerados "tempo comum". Essa semana nas capas dos três periódicos ditos principais, com maior circulação pelo Brasil, o tema é um só: ser feliz. Uma revista traz em letras grandes que o brasileiro está mais feliz. Outra que casar faz bem e deixa a pessoa feliz. A terceira sobre os melhores lugares para se trabalhar [feliz?]. Em uma visão rasteira podemos chegar à conclusão de que, essa semana, quem não estiver feliz, não tiver um bom emprego nem um bom casamento, deveria se mudar do país e aguardar uma capa mais adequada.
Curioso com tanta felicidade procurei pela matéria da Istoé, aquela que escancara sorrisos, e vi que a razão da manchete é para justificar que o brasileiro está comprando mais. Um gráfico de escala mostra um aumento no consumo de moradia, eletrônicos, automóveis, computadores e até mesmo smartphones. Como tenho um iPhone, uma televisão nova e uso o cartão de débito para pagar as contas (o banco me concede cinco saques mensais, o excedente eu tenho de pagar tarifa), provavelmente estou encaixado no perfil dos felizes. No momento, pelo contrário, não estou esbanjando alegria pela cidade. Acordei foi muito bravo por ter de dar aula às sete da manhã em plena segunda-feira, e já sabendo que meu dia só termina às dez da noite. Em tempo: da minha janela não dá para ver nenhuma marcha de pessoas contentes dançando como se fosse comercial de refrigerante.
A matéria começa elencando várias pessoas e a razão da sua felicidade: "o executivo foi promovido; a psicóloga viajou para o exterior pela primeira vez porque pôde parcelar as passagens em suaves prestações; o advogado trocou um espaçoso apartamento no Rio de Janeiro por um imóvel maior ainda; a gari comprou um celular para o filho de 15 anos e vai presentear a filha de 13 com um perfume caro". Existem outros exemplos envolvendo de alguma forma a compra ou aquisição de algum bem. No meio de todos eu destacaria um realmente merecedor: "a estudante de medicina que bancou a faculdade com uma bolsa do ProUni. Ela é o primeiro membro da família a fazer curso superior". De todo modo ninguém está feliz porque um parente se curou do câncer, ninguém está feliz porque ama o parceiro e os filhos, ninguém está feliz porque ganhou um beijo de bom dia.
Dentro desse recorte a matéria me deixou, na verdade, triste. Por simplesmente registrar uma parecença de mentalidade com aquela norte-americana da década de 1950, ou mesmo com o milagre econômico nacional nos anos 1970. Por, em um tempo de necessidade de educação social, resgatar o pensamento de que "(...) os integrantes da baixa renda precisam mostrar aos amigos e familiares que possuem um bem de causar inveja". A matéria só não diz o preço e a efemeridade desse tipo de felicidade. É aguardar para ver o quanto dura.
Independente do meu gosto, leio capa de revista principalmente para acompanhar novela. Não vejo um capítulo de nada mais, sei bem quem faz o quê só lendo manchete. Pulo a parte das revistas de regime – elas nunca mudam, tem sempre alguém ou enrolado na fita métrica ou segurando uma calça modelo Itu –, das revistas exclusivamente para o público feminino – com guia de sexo lacrado que ensina a encerar um chão como ninguém – e as revistas de mulher pelada.
Chego, claro, aos periódicos informativos semanais. A sociedade em si é meio que regida por um termômetro emocional bastante interessante, que pode ser medido por essas capas. É tragédia mundial? Toda revista abre com algum flagelado ou cena de destruição. Campanha política mostra as figuras e os ataques de sempre, no carnaval um escândalo qualquer e por aí vai.
Interessante, contudo, não é a medição da temperatura nacional em épocas de comoções em massa, mas sim nos períodos considerados "tempo comum". Essa semana nas capas dos três periódicos ditos principais, com maior circulação pelo Brasil, o tema é um só: ser feliz. Uma revista traz em letras grandes que o brasileiro está mais feliz. Outra que casar faz bem e deixa a pessoa feliz. A terceira sobre os melhores lugares para se trabalhar [feliz?]. Em uma visão rasteira podemos chegar à conclusão de que, essa semana, quem não estiver feliz, não tiver um bom emprego nem um bom casamento, deveria se mudar do país e aguardar uma capa mais adequada.
Curioso com tanta felicidade procurei pela matéria da Istoé, aquela que escancara sorrisos, e vi que a razão da manchete é para justificar que o brasileiro está comprando mais. Um gráfico de escala mostra um aumento no consumo de moradia, eletrônicos, automóveis, computadores e até mesmo smartphones. Como tenho um iPhone, uma televisão nova e uso o cartão de débito para pagar as contas (o banco me concede cinco saques mensais, o excedente eu tenho de pagar tarifa), provavelmente estou encaixado no perfil dos felizes. No momento, pelo contrário, não estou esbanjando alegria pela cidade. Acordei foi muito bravo por ter de dar aula às sete da manhã em plena segunda-feira, e já sabendo que meu dia só termina às dez da noite. Em tempo: da minha janela não dá para ver nenhuma marcha de pessoas contentes dançando como se fosse comercial de refrigerante.
A matéria começa elencando várias pessoas e a razão da sua felicidade: "o executivo foi promovido; a psicóloga viajou para o exterior pela primeira vez porque pôde parcelar as passagens em suaves prestações; o advogado trocou um espaçoso apartamento no Rio de Janeiro por um imóvel maior ainda; a gari comprou um celular para o filho de 15 anos e vai presentear a filha de 13 com um perfume caro". Existem outros exemplos envolvendo de alguma forma a compra ou aquisição de algum bem. No meio de todos eu destacaria um realmente merecedor: "a estudante de medicina que bancou a faculdade com uma bolsa do ProUni. Ela é o primeiro membro da família a fazer curso superior". De todo modo ninguém está feliz porque um parente se curou do câncer, ninguém está feliz porque ama o parceiro e os filhos, ninguém está feliz porque ganhou um beijo de bom dia.
Dentro desse recorte a matéria me deixou, na verdade, triste. Por simplesmente registrar uma parecença de mentalidade com aquela norte-americana da década de 1950, ou mesmo com o milagre econômico nacional nos anos 1970. Por, em um tempo de necessidade de educação social, resgatar o pensamento de que "(...) os integrantes da baixa renda precisam mostrar aos amigos e familiares que possuem um bem de causar inveja". A matéria só não diz o preço e a efemeridade desse tipo de felicidade. É aguardar para ver o quanto dura.
sábado, 21 de agosto de 2010
Uma questão de educação
Há alguns dias venho pensando sobre o que escrever para não despertar em mim qualquer tipo de sentimento de autocomiseração. As pessoas, algumas e principalmente aquelas cancerianas, tendem por vezes a se expor em um nível de olhem o quanto sofro, o que é, no mínimo, humilhante e inútil. A cada qual cabe sua parcela de problemas e eventos, e o modo como recebemos nossas cruzes e o que com elas fazemos diz respeito somente a cada um. Para quem me lê e me conhece apenas por aqui – são poucos, penso, se é que existem – fica apenas o registro de que dias mais tristes aconteceram, e uma frase de Santa Teresa D'Ávila: "Si en medio de las adversidades persevera el corazón con serenidad, con gozo y con paz, esto es amor". Sem mais.
Ontem, enfim, algum tipo de assunto surgiu, decorrido deste vídeo, entre amigos. Não vi nem vou ver o vídeo todo, mas o resumo mais ou menos contextualiza: "(...) tudo tranquilo no embarque, de repente aparece essa figura aí trêbada, pra lá de Bagdá". Ou, como anotei, o "doido do ônibus" entrou no avião. Pelos comentários parece que o moço foi removido da aeronave mas não quero entrar em detalhes sobre o comportamento do sujeito, porque tem gente demais para fazer isso, e sim de minha reação frente o vídeo.
Em primeiro lugar, como disse, não terminei de ver. Não dei conta. Tenho pavor de avião e, para fazer uma associação comparativa, eu em voos sou como se desenvolvesse a Síndrome de Asperger. Perco a habilidade de expressar emoções. Fico incapaz de atos simples como, aconteceu da última vez, levantar e bater uma foto da minha mãe. Pedi à aeromoça. Toda e qualquer coisa que foge do padrão, do protocolo, torna-se de uma incompreensibilidade absurda, me levando ao limite do pânico. Qualquer conselho para procurar ajuda psiquiátrica não é bem-vindo: eles vão sugerir a máquina de abraçar.
A atitude do moço foge do padrão, o que me levou diretamente a apertar o confortável botão de xis e a comentar da saudade do tempo quando incomum era a aeromoça sorteando sacola de brinde na ponte aérea. Porém, como lancei isso em uma lista de discussão, ficou mais que claro que cada vez mais os aviões vão atender cada vez mais gente de diversas classes. Em resumo: vai ter cada vez mais pobre voando.
Daí que, e esse é um ponto que levanto, o problema do homem no vídeo não é ele ser pobre, mas sim ter sido inconveniente e desrespeitoso com pelo menos outras 50 pessoas com quem ele dividia o espaço. O problema dele não é a pobreza, não é o álcool, não é ser negro (como ele alude), não é nada além de ser uma pessoa "momentaneamente" incapacitada ao convívio social. E a culpa é dele? Não. É tudo questão de educação.
Não venho de família rica, não venho de família pobre, até hoje não sei delimitar a minha classe social. Como não tenho aspirador de pó nem empregada mensalista eu desço de nível, então fico naquele meio-termo indistinto das pessoas que têm rios de imposto a pagar mas não conseguem comprar um carro. Não que eu o queira. Independente disso, orgulho-me de ter sido pelo menos educado bem dentro de casa. O suficiente para saber que existe o meu espaço e existe o espaço do outro, que deve ser respeitado.
O moço do vídeo não teve esse tipo de educação por algum motivo. Descaso do governo, mãe ausente, abandonado nas ruas, não importa. Ele não foi educado para a situação de convívio que o lugar pedia. Porém ele não é o único e a classe à qual ele aparenta pertencer não é a única afetada pelo grande mal da falta de trato com o outro que adoece a sociedade.
Você já furou uma fila? Joga papel pela janela, seja em que lugar for? E lixo no chão do ônibus? Já grudou chiclete na cadeira do cinema? Você grita ao celular? Tem um carro com tanta caixa de som que não cabe um envelope no bagageiro? Sai pela rua com o carro ligado mostrando o seu gosto musical pela cidade? Já jogou gasolina e ateou fogo em mendigo? Bateu em doméstica no meio da rua achando que ela era prostituta? Parabéns! Você pode se assentar do lado daquele sujeito porque, tirando a gravidade da situação, dele você não se diferencia em nada.
E talvez não seja também sua culpa. Pode ser culpa do seu pai, frustrado por não estar em casa, que te encheu de presentes e sempre passou a mão na sua cabeça. Pode ser a mãe alcoólatra que só ia dormir depois de te dar uma surra. Pode ser a vida. Pode ser tudo. Pode ser o dia de cão, o trabalho que não fica pronto. No fundo, tudo é causa para jogarmos nossos transtornos na figura do outro e não olharmos para nós mesmos.
Digo isso porque hoje fui posto à prova, e falhei. Entrei em um ônibus e lá estava ele, o "doido do ônibus", disfarçado de mulher. A mulher gritava e mexia com todos e mostrava os remédios que tinha de tomar e falava e era insuportável. E eu fui para o canto e usei o meu provedor instantâneo de autismo, também conhecido como iPod. Até a hora em que ela me tocou. E, em um surto violento, por estar em um ônibus e não dentro de um avião, eu reagi. Olhei para a mulher e disse "Eu por acaso estou conversando com você? Estou prestando atenção em você? Então me deixa em paz". E ela calou. E desceu no ponto seguinte. E a trocadora olhou para mim como se eu fosse mais doido que a doida. No fim das contas também mereço ser retirado do voo, ainda preciso melhorar muito para conseguir um assento decente.
Encerro, de novo, com Santa Teresa D'Ávila: "(...) Procuremos siempre mirar las virtudes y cosas buenas que viéremos en los otros y tapar sus defectos con nuestros grandes pecados... tener a todos por mejores que nosotros". Essa é a grande lição do dia.
Ontem, enfim, algum tipo de assunto surgiu, decorrido deste vídeo, entre amigos. Não vi nem vou ver o vídeo todo, mas o resumo mais ou menos contextualiza: "(...) tudo tranquilo no embarque, de repente aparece essa figura aí trêbada, pra lá de Bagdá". Ou, como anotei, o "doido do ônibus" entrou no avião. Pelos comentários parece que o moço foi removido da aeronave mas não quero entrar em detalhes sobre o comportamento do sujeito, porque tem gente demais para fazer isso, e sim de minha reação frente o vídeo.
Em primeiro lugar, como disse, não terminei de ver. Não dei conta. Tenho pavor de avião e, para fazer uma associação comparativa, eu em voos sou como se desenvolvesse a Síndrome de Asperger. Perco a habilidade de expressar emoções. Fico incapaz de atos simples como, aconteceu da última vez, levantar e bater uma foto da minha mãe. Pedi à aeromoça. Toda e qualquer coisa que foge do padrão, do protocolo, torna-se de uma incompreensibilidade absurda, me levando ao limite do pânico. Qualquer conselho para procurar ajuda psiquiátrica não é bem-vindo: eles vão sugerir a máquina de abraçar.
A atitude do moço foge do padrão, o que me levou diretamente a apertar o confortável botão de xis e a comentar da saudade do tempo quando incomum era a aeromoça sorteando sacola de brinde na ponte aérea. Porém, como lancei isso em uma lista de discussão, ficou mais que claro que cada vez mais os aviões vão atender cada vez mais gente de diversas classes. Em resumo: vai ter cada vez mais pobre voando.
Daí que, e esse é um ponto que levanto, o problema do homem no vídeo não é ele ser pobre, mas sim ter sido inconveniente e desrespeitoso com pelo menos outras 50 pessoas com quem ele dividia o espaço. O problema dele não é a pobreza, não é o álcool, não é ser negro (como ele alude), não é nada além de ser uma pessoa "momentaneamente" incapacitada ao convívio social. E a culpa é dele? Não. É tudo questão de educação.
Não venho de família rica, não venho de família pobre, até hoje não sei delimitar a minha classe social. Como não tenho aspirador de pó nem empregada mensalista eu desço de nível, então fico naquele meio-termo indistinto das pessoas que têm rios de imposto a pagar mas não conseguem comprar um carro. Não que eu o queira. Independente disso, orgulho-me de ter sido pelo menos educado bem dentro de casa. O suficiente para saber que existe o meu espaço e existe o espaço do outro, que deve ser respeitado.
O moço do vídeo não teve esse tipo de educação por algum motivo. Descaso do governo, mãe ausente, abandonado nas ruas, não importa. Ele não foi educado para a situação de convívio que o lugar pedia. Porém ele não é o único e a classe à qual ele aparenta pertencer não é a única afetada pelo grande mal da falta de trato com o outro que adoece a sociedade.
Você já furou uma fila? Joga papel pela janela, seja em que lugar for? E lixo no chão do ônibus? Já grudou chiclete na cadeira do cinema? Você grita ao celular? Tem um carro com tanta caixa de som que não cabe um envelope no bagageiro? Sai pela rua com o carro ligado mostrando o seu gosto musical pela cidade? Já jogou gasolina e ateou fogo em mendigo? Bateu em doméstica no meio da rua achando que ela era prostituta? Parabéns! Você pode se assentar do lado daquele sujeito porque, tirando a gravidade da situação, dele você não se diferencia em nada.
E talvez não seja também sua culpa. Pode ser culpa do seu pai, frustrado por não estar em casa, que te encheu de presentes e sempre passou a mão na sua cabeça. Pode ser a mãe alcoólatra que só ia dormir depois de te dar uma surra. Pode ser a vida. Pode ser tudo. Pode ser o dia de cão, o trabalho que não fica pronto. No fundo, tudo é causa para jogarmos nossos transtornos na figura do outro e não olharmos para nós mesmos.
Digo isso porque hoje fui posto à prova, e falhei. Entrei em um ônibus e lá estava ele, o "doido do ônibus", disfarçado de mulher. A mulher gritava e mexia com todos e mostrava os remédios que tinha de tomar e falava e era insuportável. E eu fui para o canto e usei o meu provedor instantâneo de autismo, também conhecido como iPod. Até a hora em que ela me tocou. E, em um surto violento, por estar em um ônibus e não dentro de um avião, eu reagi. Olhei para a mulher e disse "Eu por acaso estou conversando com você? Estou prestando atenção em você? Então me deixa em paz". E ela calou. E desceu no ponto seguinte. E a trocadora olhou para mim como se eu fosse mais doido que a doida. No fim das contas também mereço ser retirado do voo, ainda preciso melhorar muito para conseguir um assento decente.
Encerro, de novo, com Santa Teresa D'Ávila: "(...) Procuremos siempre mirar las virtudes y cosas buenas que viéremos en los otros y tapar sus defectos con nuestros grandes pecados... tener a todos por mejores que nosotros". Essa é a grande lição do dia.
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