quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Advertência

Os textos contidos nessa página refletem a observação e interpretação de momentos específicos. Reservo-me, como qualquer ser humano, o direito de ser incoerente, passional, depressivo e por vezes cruel se assim o couber. Sou, principalmente, um observador da vida, um "colhedor de absurdos", como venho me chamando. E por vezes pego recortes que, dependendo do leitor, podem soar como verdadeiras punhaladas.

Escrever é um ato de rasgar, por vezes. Para ficar escrito o papel precisa ser violado pelo instrumento. Às vezes duro, às vezes prazeroso, por vezes dispensável. Mas ocorrido, acontecido.

Segunda advertência: não apago meus textos. Porque, mesmo possível, seria como tentar reescrever o passado. É uma artificialidade que a mim não cabe. Interpretem como quiser.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Exercício de memória : personagens

Alguns amigos postaram em seus perfis do Facebook esses últimos meses uma brincadeira dos 15 mais. Os 15 livros, 15 filmes, 15 músicas que marcaram a sua vida, fizeram chorar, vão ser sempre lembrados. O desafio, digamos assim, era retornar a mensagem em 15 minutos, compartilhando a lista com o amigo e passando para frente a "corrente" (na falta de um melhor termo). Interessante mas não participei de nenhuma brincadeira.

Em primeiro lugar porque sou bobo, chato e feio. Depois porque não tem como eu revirar meu baú mental e pinçar, em um espaço de tempo tão reduzido, 15 aleatoriedades realmente representativas. Mas, sendo mais chato ainda, como gostei da ideia resolvi subvertê-la e preparar uma lista de personagens (reais ou não) que marcaram minha vida. Para o bem e para o mal. Devem ser 15, mas talvez falte (ou sobre) algum. A ordem de entrada é totalmente randômica, até pensei fazer ordem alfabética, mas vou deixar a memória mandar. Clique no nome da personagem para vê-la no Youtube.

O espelho mágico da Branca de Neve
Começando de cara com o espelho, um dos coadjuvantes mais interessantes, em minha modesta opinião, do cinema de animação. Nem bom nem mau, o espelho diz a verdade. E filosofa vez por outra. Fora que não tem medo de responder à rainha má que existe alguém mais belo no reino. A rainha, mui respeitosamente, ouve e em momento algum dá uma pedrada no vidro e faz o espelho virar mil.

Malévola
Ainda no cinema de animação, Malévola é a vilã e não se discute. Pérfida e cruel como deve ser, irritada, irritante e irritável, musa maligna da minha geração. Bia Falcão aprendeu com Malévola. Sue Sylvester aprendeu com Malévola. Eu... bem, eu também!

Cassandra
Personagem de Eurípides, personagem da Guerra de Troia, pitonisa, enlouquecida e amaldiçoada. Cassandra foi condenada à privação da confiança. Ela sempre dizia a verdade, e nunca acreditavam nela. Para representar a personagem da peça em que atuei, escolhi a interpretação de Geneviève Bujold no filme As Troianas, de 1971. Com Vanessa Redgrave no papel de Andrômaca e Katharine Hepburn arrasando como Hécuba. Taltíbio, personagem que interpretei no teatro, está também no trailer do link.

O Advogado
"Sim, eu sou um homem e choro. Um homem não tem olhos? Não tem também mãos, sentidos, inclinações, paixões? Porque é que um homem não devia chorar?" Estudei O Sonho, de August Strindberg, aos 15-16 anos. Seria uma peça que eu remontaria hoje, e faria exatamente o mesmo personagem: o Advogado. Arquetípico, não? E pensar que na época, lá no comecinho, queria mesmo ser o Oficial. Foi O Sonho que me levou a Bergman, e à personagem abaixo.

Ismael Retzinsky
Ismael é um garoto mantido num quarto fechado. Extremamente sedutor, assim como o pequeno universo em que vive. Andrógino, é interpretado por uma atriz (Stina Ekblad) em Fanny e Alexander. Se eu pudesse em meu leito de morte escolher uma cena de filme para assistir seria, sem dúvida alguma, essa.

Don Vito Corleone
A descrição mais difícil de ser feita sem cair em clichê. Então resumo assim: canceriano. Pronto.

Bacana
Qual menino da minha idade não queria ser o Bacana? O personagem, como não poderia deixar de ser, estigmatizou o Jonas Torres de um jeito que o moço foi virar marinheiro nos EUA. Mas o Bacana era bacana demais! E a Armação Ilimitada tinha, acho, algum roteiro. E tinha Zelda, Ronalda, o Chefe...

Stalker
Stalker foi um filme que só assisti uma vez, e acho que provavelmente dormi em parte dele. Produção típica do Tarkovsky, clima onírico com longas tomadas, o principal do personagem Stalker é mesmo o nome. Toda vez que alguém menciona o termo "stalker" (extremamente comum nos dias de hoje) são essas imagens que me vêm à cabeça na hora.

Fania Fenelon
A amarga sinfonia de Auschwitz traz Vanessa Redgrave (de novo ela) com a cabeça raspada interpretando uma prisioneira judia que sobrevive a Auschwitz por causa da música e de uma orquestra de presidiárias. A Fania real não gostou muito de ter sido interpretada pela Vanessa. Pelo que lembro do filme, foi um dos que mais chorei em toda minha vida.

Eduardo II e Gaveston
Referência ao rei da Inglaterra, o filme de Derek Jarman ainda me marca até hoje. Não tenho como escolher apenas um do casal gay real. Mas a cena mais marcante do filme, para mim, é o menino maquiado, de brincos, sobre a jaula do rei.

Macunaíma
Consigo descrever exatamente a noite em que assisti a esse filme na casa da minha mãe e fiquei chocado com o parto do Macunaíma. Não lembro se para a faculdade (dela) ou para a escola (minha), Macunaíma apareceu lá em casa para ajudar na leitura de um livro. Até hoje não gosto quando o Grande Otelo vira Paulo José.

Mary Matoso
Das melhores personagens da Patrícia Travassos em uma novela que marcou a minha adolescência. Dessas coisas de querer chegar em casa logo só para ver Vamp. Na memória a cena em que ela, de posse do comando da rádio da cidade, obriga o lugar inteiro a ouvir Recuerdos de Ypacaraí na sua linda voz de gralha velha.

Baronesa Eknésia
Se a telenovela é a educação sentimental do brasileiro, a Baronesa com certeza é a melhor professora. De brinde a Rainha Valentina, em uma interpretação impecável da Tereza Rachel.

Beato Salu
Eu tinha medo do Beato Salu, sabia?

Perpétua
Para encerrar com uma vilã. Figura inesquecível com a misteriosa caixa branca, na qual ela guardava o membro decepado do falecido marido. A minha mãe me proibiu de assistir a Tieta, porque chamei a emprega de fedaputa. Por isso tenho um lapso de memória de certos trechos da novela.

A lista pode aumentar, só que vou parar aqui. Afinal são 15 apenas.

*Update: pouco tempo depois de eu postar vi que o link de A amarga sinfonia de Auschwitz foi "banido" do Youtube e não achei outro. Deixei a foto da Vanessa no lugar.

sábado, 16 de outubro de 2010

Sobre o amor: re[in]flexões

Uma das grandes mentiras vendidas em loja é o jogo de cama de casal 4 peças: dois lençóis, duas fronhas e só. Jogo de cama (de casal) deveria ter no mínimo um lençol extra, para evitar que um roube o lençol do outro no meio da noite. Não sei como era no tempo de nossas avós, mas tenho cá comigo que essa ideia de duas pessoas sob um mesmo pano deve ter nascido com o conceito de amor romântico, aquele inventado em algum começo de século.

Vejamos a tradição amorosa anterior à literatura romântica – aquela com amores impossíveis, tragédias arrebatadoras e melodramas de cortar o coração, escritos por Shakespeare, Tomás Gonzaga (o da Marília de Dirceu), Glória Magadan e Janete Clair, entre outros.

Amores se arranjavam, amores eram desvinculados da instituição casamento. O ato de casar era visto como negócio que, e principalmente, por ser negócio, durava toda uma vida. O convívio entre os arranjados viria a tornar a relação, se não sólida, suportável na maioria das vezes. Assim como nos dias de hoje, relacionamentos abusivos existem, e aqui quero enquadrar a questão apenas da maioria, deixando para dramaturgos a função de explorar melhor as donzelas fugidas com cavaleiros e as escravas raptadas tornadas senhoras de engenho.

Casamentos [não amores] davam certo, duravam. Amores, como a expectativa de vida, eram aventuras de curto prazo e algumas lágrimas.

Até que alguém resolveu dar nome e sentido ao conceito de amor que temos hoje: esse que passa na novela e termina quase sempre em final feliz. Também dá as cartas no que chamamos comédia romântica, nas literaturas de banca de revista (Bianca, Sabrina, se é que ainda vendem isso), na programação do rádio. Tudo ou quase fala de amor, da expectativa do amor, da realização do amor e dos felizes para sempre sobe o letreiro.

A questão, claro, não é o encantamento inicial. Vive-se um tempo em que casamento continua sendo negócio [não duvide], porém com uma margem de risco superampliada e a inevitável sensação de que vai dar errado a qualquer momento. Por que seria, pergunto.

Se temos maior acesso a informação, maior possibilidade de escolha [rá, maior possibilidade implica também em mais chances de erro] e principalmente liberdade de escolha, qual a razão de um relacionamento por definição livre, iniciado pelo conceito externalizado do Amor, ou seja, nos moldes da educação sentimental pregada pelos melodramas, se somos pessoas privilegiadas por conseguir reunir as condições idealizadas por uma gama de autores ditos românticos, qual a razão para tudo de repente ir por água abaixo?

Pergunta que respondo assim: pela ampla falta de respeito próprio. Entenda, não digo que as pessoas não se respeitam mais umas às outras, talvez até se respeitem mais do que deveriam. Porém esqueceram-se de se dar o respeito. Eu mesmo, mea culpa, assumo, sou um intenso desrespeitador de mim. Não levanto limites, não imponho barreiras e, grave erro, aceito muita coisa sem discutir. Conviver é ceder em partes, com algum tipo de contrapartida. Mas quando se cede demais é como aquela famosa historinha: anteontem mataram o gato e não fiz nada, hoje voltaram e queimaram a minha casa, violentaram minha mulher e eu... Permaneci fazendo nada.

Não há mais nada o que se fazer. Apenas dar chance ao fim e a um possível recomeço, seja qual for. Recomeçar é sempre bom e necessário. Sem nunca, claro, abandonar o que se aprendeu. Por agora tenho uma grande vontade de fim. E deixo uma dica para quem for montar casa: compre um lençol extra para todo jogo de casal. Por ora, agora, fim.

sábado, 25 de setembro de 2010

O pato, a morte e a tulipa

"Viemos ao mundo para amar a vida."

Pensamos ser difícil ensinar Filosofia a crianças... Talvez não o seja. Talvez seja fácil por demais. Porque as crianças têm uma imensa capacidade de assimilação, de absorção daquilo que a elas é interessante. Difícil, então, não deve ser ensinar. Filosofia, Astronomia, Matemática, Literatura, não importa, a criança é capaz de aprender. Desde que, claro, você desperte a sua atenção e a mantenha interessada. Só que isso, prezado, é tarefa de profissionais.

O pato, a morte, e a tulipa em questão não são – mas o são – os personagens dos livros de Erlbruch. E não o são porque oficialmente não os li. Até tentei, não tinha na loja. Mas são, vieram dos livros e subiram no palco, delicadamente apropriados pela Érica [Lima]. Pato e Morte estão dentro da história que a Érica quer contar. Que é uma história sobre contar histórias. Ou, ainda, sobre como encantar as crianças.

Confesso que, enquanto ator, sou um clown frustrado. Apesar de nunca ter trabalhado ou desenvolvido meu clown, [acho que] sei que o meu personagem vai parar na linhagem dos tristes. Imagino meu clown como aquele palhaço horrível das gravuras da década de 1970. Assistir a um trabalho de clowns, para mim, é exercício que demanda paciência, desprendimento e desapego.

Mas que história é essa? [a peça de teatro] começa justo com dois clowns. Dois atores totalmente seguros de seu trabalho, e eu pensando em quanto de pirueta e acrobacia, e morrendo de inveja do condicionamento físico dos dois, e trabalho de cena ia ter de ver. Até que.

Até que tudo deixa de ter importância e, assim, na história de dois clowns contando uma história sobre contar histórias – que, juro, pensei que ia ter de passar óleo de peroba no rosto, fazer cara de paisagem e dizer que "é interessante" –, de repente a gente vê que o circo todo é montado para – perdão o trocadilho infame – cairmos como patinhos na rede armada pela autora [a Érica Lima], diretores [Marcelo Xavier e a própria Érica], elenco [Marcus Vinícius e Rubens Ramalho]. Somos plena e ludicamente encantados, adultos e crianças da plateia, para mergulhar em águas um pouco mais profundas. Como marinheiros que ouvem o canto das sereias.

Uma vez nós, público, devidamente rendidos, os atores nos têm na palma da mão. E abusam, dando vida a um Pato – que de pato, fisicamente, só tem o nome – e à inevitável, aquela que está sempre ao nosso lado (e por isso nunca se atrasa), a Morte. E nos fazem presenciar esse encontro, um tanto quanto inusitado, e a refletir sobre o sentido da vida. Cada qual de seu modo, adulto, criança, pato, somos levados a pensar na grande questão de para quê (ou por que) vivemos. E a resgatar a lembrança da finitude da vida. Tudo com uma grande (e abusada) delicadeza...

A Érica [Lima] deveria escrever mais. Deveria atuar mais também, mas isso fica entre eu e ela. Mas que história é essa? está pronta para começar. Se eu fosse você aproveitava a jornada... até mesmo sem levar criança alguma. Afinal, o espetáculo definitivamente não é só para elas.

Mas que história é essa?, uma produção do grupo Real Fantasia, está em cartaz no Galpão Cine Horto, dentro do projeto "Semana da Criança no Teatro". A estreia é hoje, dia 25 de setembro, às 17h. Eu sou chique, a Érica passou lá no meu trabalho e me deu um convite para a pré-estreia. Se não der tempo de você ir hoje, tem amanhã também, e nos dias 2 e 3 de outubro, no mesmo horário. A entrada (inteira) custa R$20.

E a tulipa? Bem, a tulipa...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Leitura dinâmica

Preciso aprender a
escrever parágrafos
menores

(estou para desenhar esse haicai no meu caderno há 15 dias)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Um pouco de história da arte

O ano era 1970, abril. Eu, logicamente, só viria a nascer alguns anos depois. Meus pais, vizinhos que brigavam desde a infância, já se conheciam, bobear até namoravam, não sei. Aqui em Belo Horizonte acontecia uma exposição chamada Objeto e participação, com uma manifestação paralela chamada Do Corpo à Terra. Eram os anos de ferro, o ecologicamente correto ainda não estava em alta, e os artistas mais engajados aproveitavam o contexto social para se manifestar como podiam.

"Objeto e Participação consistiu numa exposição coletiva, realizada no saguão do Palácio das Artes com trabalhos experimentais, abertos à participação do público, de Franz Weissman, Tereza Simões, José Ronaldo Lima, Humberto Costa Barros, Guilherme Vaz, Carlos Vergara, Ione Saldanha, Odila Ferraz, Cláudio Paiva, George Helt, Orlando Castaño, Manoel Serpa, Manfredo Souzanneto, Terezinha Soares, Yvone Etrusco, Nelson Leirner e Marcelo Nistche. Do Corpo à Terra foram propostas conceituais realizadas durante três dias no parque e nas ruas da cidade. Os artistas não apresentaram obras, mas realizaram várias ações: Cildo Meireles queimou galinhas vivas em homenagem ao sacrifício de Tiradentes; Dilton Araújo cercou o Parque Municipal com uma corda; Lotus Lobo plantou sementes; Luis Alphonsus queimou uma faixa de pano de 30 metros; Eduardo Ângelo rasgou vários jornais velhos; Luciano Gusmão fez um mapeamento do Parque, dividindo as áreas livres das áreas de repressão; [Artur] Barrio jogou trouxas de carne e osso no Ribeirão Arrudas; Lee Jaffe executou a proposta de Oiticica, desenhando uma trilha de açúcar na Serra do Curral e eu fiz apropriações fotográficas de vários locais da cidade. Do Corpo à Terra foi a última e mais radical manifestação coletiva da vanguarda brasileira" (Depoimento de Frederico Morais a Marília Andrés Ribeiro no livro Neovanguardas: Belo Horizonte – Anos 60. Belo Horizonte: C/Arte, 1997).

A parte em que o Cildo Meireles queimou galinhas vivas foi grifada por mim. Não sei até que ponto queimar galinha era normal e aceitável na década de 1970, mas lembro o choque que tive quando assisti a Marília falando isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se ele estivesse descascando uma cebola. Ó gente, ele queimou galinha mas era arte. E ok, era arte mesmo, havia uma proposta por trás daquilo tudo que tinha muito a ver com o estado da sociedade civil da época. Se lembro bem da aula, apesar do choque que deve ter causado, não tivemos manifestações de populares pulando no fogo para salvar as galinhas da fogueira. Galinhas D'Arc. Quarenta anos depois Cildo é um artista plástico bastante conhecido, só deve queimar galinha no forno de casa, e virou verbete na Enciclopédia Itaú de Artes Visuais. Na onda do politicamente correto, a queima de galinha está disfarçada sob o título da obra (Tiradentes - Totem-monumento ao Preso Político).

Obviamente uma manifestação artístico-política desse nível não tem lugar na sociedade atual. Com internet e globalização na jogada, um pobre coitado costa-riquenho pretendente a artista, Guillermo Habacuc, lá na Nicarágua, caiu na besteira de, em pleno 2007, pegar um cachorro de rua e prender dentro de uma galeria de arte sem água nem comida até o cachorro morrer. O erro do Habacuc (atenção: eu tenho duas cachorras e a minha vontade é sim de pegar o tal artista e deixar preso numa corda até morrer de fome e sede, só que a sociedade já o execrou o suficiente) foi de data e, principalmente, de falta de inteligência. O pateta achou que com pleno PETA e movimentos de defesa dos animais na parada a sua arte (e ok, é arte sim, mas uma arte totalmente fora do contexto mundial atual – e me reservo o direito de não saber nada sobre a situação política nicaraguense quando da instalação) seria aclamada. Caiu no esquecimento e provavelmente a próxima obra "do gênero" que ele fizer vai acabar em paulada na cabeça (dele). Há versões e versões para a história do cão. Pesquisando links para esse texto vi, no G1, que o cachorro teria fugido e só ficou sem alimentação durante o período da instalação. Enfim, o caso do cachorro é apenas elemento ilustrativo para o parágrafo seguinte.

29ª Bienal de São Paulo, 2010. Gil Vicente apresenta a série Inimigos, desenhos nos quais ele se representa matando líderes mundiais, como o Papa, a Rainha da Inglaterra, o presidente Lula, George Bush e por aí vai. Desenho, traço. Nem dá para dizer que é hiper-realismo, as imagens são basicamente grafite sobre papel. Instaladas em um espaço criado para se pensar a arte, para se mostrar arte contemporânea. Não tem galinha queimando, não tem cachorro passando fome. Mas tem, claro, polêmica (também conhecida como o ato de falar mal para que uma coisa besta vire sucesso). Entraram com um recurso no Ministério Público, alegando que a obra faz apologia ao crime e deve ser retirada da Bienal. Será que deve mesmo?

Fazendo uma pequena retrospectiva (recente) da arte cinematográfica, vou elencar dois títulos: Dogville e Bastardos Inglórios. Dois filmes, cada um do seu jeito, que levam o espectador a um processo catártico, em um final coroado com assassinatos brutais embutidos em cenas maravilhosas que me fizeram sair do cinema de alma lavada. Mataram Hitler na ficção. Mataram todos os habitantes de Dogville, bem feito, eles mereciam. Daí me pergunto, deveria o Ministério Público intervir, alegando que os filmes fazem apologia à violência? No cinema nacional, o filme Tropa de Elite encerra com um policial dando um tiro na cara de um bandido rendido. Isso não é crime também? E qual a diferença entre imagem em movimento e grafite sobre papel, alguém me explica? Copiando o blog da Barbara Gancia:

"Que [Flávio] D’Urso [presidente da OAB/SP que entrou com a ação no MP] ache impróprias imagens mostrando o artista pronto para executar figuras públicas como a rainha Elizabeth, FHC e Lula ou diga que a obra incita a violência não significa absolutamente nada, tem efeito prático zero, não vai dar em nada, não traduz o desejo da sociedade, revela apenas a ignorância e a falta de compreensão de uma pessoa que não estudou o suficiente para se manifestar sobre arte."

Eu, brincando de ministro, daria ao proponente a seguinte resposta:

"Prezado senhor, agradecemos o seu pedido. No momento, porém, temos mais o que fazer e não demonstramos interesse em avaliar obra de arte. A competência dessa avaliação cabe à curadoria da exposição, que deve ter lá seus motivos para pendurar os quadros. Reclame com eles se não gostou, faça uma petição na internet, passe uma corrente para os amigos, diga para ninguém entrar ou, como já virou moda no Ibirapuera, pegue uma lata de spray e piche os quadros. Só não reclame depois se for preso. Da nossa parte, cremos que o MP não tem competência para instituir censura de qualquer espécie, e é perda de tempo censurar aquilo que está rodando a torto e a direito na internet exclusivamente por sua causa. Caso haja interesse em ocupar seu tempo ocioso com alguma atividade proveitosa, gentileza entrar em contato com a Maria, a atendente do cafezinho. Temos xícaras e pires a lavar. Sem mais."

terça-feira, 21 de setembro de 2010

60 Minutos (voo solo em três atos)

Ato 1: 2008
No meio das atividades que desempenho todos os dias está o papel de professor de inglês. Não sei se gosto. Gosto de dar aulas, é bom. Porém como não sou muito chegado em gente burra, a minha paciência enquanto professor fica bastante reduzida. Entenda: ninguém tem obrigação de saber inglês, aulas existem para ensinar. Só que existem professores e professores e, se tenho o dom, deve ser mais para administrar grupos de discussão. Ou não, até porque, paradoxo, opto sempre por trabalhar com iniciantes. Também não gosto de corrigir prova, preencher diário de classe, toda aquela burocracia que acompanha o ato de lecionar em si.

Sem muita viagem, esse é um texto em três atos, ainda estamos no segundo parágrafo e eu não disse a que vim, enquanto professor vez por outra a gente tem treinamentos, eventos geralmente patrocinados por alguma editora de livros didáticos da área, nos quais a gente vai para ouvir alguém falar em inglês sobre como dar aulas de inglês, receber propaganda, concorrer a um kit de livros, encher a barriga no coffee-break e, claro, mostrar aos outros professores concorrentes o quanto você sabe falar em inglês. Rebelde como sou, geralmente nesses eventos respondo em português a qualquer idioma que falem comigo.

Em 2008, o último dos eventos a que fui, um autor paulistano especializado no ensino para crianças comparava o processo de aprendizagem a uma corrida. Ilustrou a fala com fotos dele mesmo participando de uma prova de rua, imagens do homem devidamente trajado para a competição, se alongando para a prova, durante a corrida e, claro, chegando no final. Tirando o mico que o cara pagou, em algumas fotos ele fazia caras e bocas de ator de cinema mudo, achei a ideia interessante. Quem participa de provas de corrida (amadores, deixemos os corredores profissionais para lá) sabe que o objetivo é concluir a prova respeitando os próprios limites. Por isso todo mundo ganha medalha. Ensinar um idioma é dar a pista para a pessoa correr dentro de sua capacidade. Importante é o percurso; a chegada é consequência.


Ato 2: 2009
Comecei o ano de 2009 com 101 quilos e terminei com 79. Não se animem, ganhei peso depois disso e tenho um longo caminho em busca dos 75 ideais segundo a matemática. No começo do ano não dei aulas, por isso não frequentei palestras. Dei um tempo para cuidar de coisas básicas como emagrecer, diminuir o colesterol, a capa de gordura e evitar um diagnóstico precoce de diabetes. Enfim: manter-me vivo com um mínimo de decência e sem dar trabalho a ninguém.

O processo de retomada da saúde física envolveu dieta, controle médico e exercícios. Tive de colocar na cabeça que academia passaria a fazer parte da minha rotina pelo resto da vida, que chá verde não é o fim do mundo (beba quente: frio ou morno amarga horrores), que produtos integrais são nossos amigos e que não, não pode comer doce todo dia. Também tive de enfrentar alguns monstros como peitoral voador, elipticon, banco extensor, remo e graviton. Depois da tortura medieval dava para pelo menos ligar a esteira e, como sou um rapaz comportado, o povo da academia me deixava em paz até mesmo para ficar mais tempo que o permitido para todos.

Foi nessa época que aconteceram eventos, não lembro exatamente em que ordem. Um dos estagiários da academia me viu na esteira, disse que eu tinha “uma boa arrancada” e que deveria correr na rua. Eu ri, não muito obrigado. Outro estagiário resolveu criar um grupo de corrida e me chamou, não muito obrigado. A minha médica, Dra. Ângela, disse que eu devia correr na rua, eu ri de novo e disse que ela estava louca. Uma amiga minha começou a correr e vivia me chamando e eu, não, não tenho treinamento para isso. Mas uma vez tentei fazer uma inscrição: esgotada. Interpretei como sinal de não é para mim, principalmente depois de ouvir dentro de casa que não tenho condicionamento físico para isso, que minha família sofre do coração e que eu poderia ter um troço no meio da corrida, cair duro e morrer.


Ato 3: 2010
No segundo semestre de 2009, mais ainda no começo desse ano, voltei a dar aulas toda noite ou quase. Hoje meu horário útil enquanto professor, de segunda a quinta, encerra às 20h. Sábado de manhã até o meio-dia. Com isso dei uma desandada geral na academia, na dieta, voltei a ter o chocolate amargo como amigo e companheiro de colégio. Resultado engordei. Fim, vamos recomeçar. A Dra. Ângela até entendeu algumas de minhas razões mas o fato real é que dei mesmo uma desanimada. Acontece.

Mas, como cada um tem seu tempo, resolvi que não tenho bolso para ficar trocando de guarda roupas toda vez que mudo de corpo e que eu tinha de novo de tomar vergonha na cara e deixar a moleza de lado. Retomei, em parte, a academia, indo sempre que dava. (Um aparte: o mais difícil de ir à academia não é fazer os exercícios e sim romper a barreira que separa o seu lugar de origem, casa, trabalho, da academia propriamente dita. Uma vez lá dentro, acredite em mim, você faz tudo normalmente.) Como fiquei parado um tempo, a professora me deu "bomba", voltando para os aparelhos básicos e alternando com atividade aeróbica como se fosse um circuito. Praticamente não posso parar muito além dos 20 segundos de intervalo entre uma série e outra, dói pra caramba, mas é preciso fazer o corpo voltar a lembrar que ele se mexe e não fica só jogando fazendinha nas horas vagas.

Conversando com a mesma amiga que vivia me chamando para correr na rua, ela tanto insistiu para eu participar de uma prova (revezamento) com ela, que enfim cedi. "Põe logo meu nome nessa coisa então e me dá sossego", falei. 5 milhas, ou 8 quilômetros. Em casa foi o caos: você vai morrer, tem de preparar mais um ano, vai cair duro no chão, não vai dar conta. Fiquei mesmo com medo, sou um cagão. Mas fui. Ok, fui porque bateram uma aposta que eu não ia, e quer me fazer fazer alguma coisa é dizer que eu não vou. Teimoso, eu? Imagina.

Domingo passado acordei seis da manhã. Seis e meia na rua, carona pro local da corrida. Que começou as oito, mas como eu era o número dois tive de esperar minha amiga terminar a primeira parte do percurso, pouco mais de uma hora. Nove e dois lá estava eu com uma rua pela frente, me orientando exclusivamente por um tanto de cavalete e fita zebrada. Com música no ouvido, um podcast que baixei na última hora (duração: 1h40, achei que dava para acompanhar a corrida toda sem mudar de faixa), e meus tênis. Só. Correndo. Com o vento frio na cara. E achando bom.

A foto comprova: corri. Gostei. E como estou escrevendo dá para deduzir que não morri. Hoje fui na Dra. Ângela com a medalha (todo mundo que termina a corrida ganha medalha, lembra?) e ela, toda feliz, falou para eu fazer a volta da Pampulha ano que vem, a louca. Por enquanto vou devagar. Dia 23 de outubro tem a night run, inscrevi para os 5km. Três a menos que domingo, achei melhor assim. 10km é muito para os meus atuais 88kg. Enquanto isso vou treinando, não posso fazer feio. Coisa interessante é que meu rendimento na rua foi maior na esteira: 8km em quase 60 minutos. Achei que fosse ser diferente. Sobraram 40 minutos do podcast.