domingo, 6 de fevereiro de 2011

O correto insuportável

Ontem na fila do teatro encontro uma antiga conhecida, professora universitária que nunca me deu aulas, apesar de eu ter estudado no mesmo curso e na mesma faculdade que ela até hoje trabalha. E nos pegamos maravilhosamente conversando sobre como a vida cria mecanismos para ficar cada vez mais, na falta de um melhor termo, chata.

Era peça infantil e a produção resolveu dar os programas (que tinham uma máscara para recortar e usar depois) somente às crianças. Nem eu nem ela temos filho e logicamente ficamos sem programa. Nisso ela solta que quase disse ser minha mãe e que eu tinha problema mental, para sensibilizar a moça da produção, mas ela achou melhor não fazer, porque dizer que o filho é retardado nos dias de hoje é politicamente incorreto demais e bobear dá processo.

Aí me lembrei da reportagem que havia passado no jornal do almoço, uma psicóloga dizendo que não pode mais colocar apelido em criança. A dona provavelmente deve ter passado por um bom trauma nos tempos do colégio, ela transmite todo um background de quem era da turma dos excluídos no colégio. Desajeitada, coitadinha, a gente lá em casa de cara colocou nela um dois ou três apelidos de mulher feia.

E comentamos também que está cada vez mais difícil contar piada. Não pode preto, não pode veado, não pode mulher. Também não tem muito mais como contar história, porque negro malvado não pode, mulher vilã não pode, todo mundo tem de ser bonzinho no fim das contas. Tudo precisa estar politicamente correto, ter uma lição positiva, educar para o bem. O que é extremamente chato.

Mal a gente sabia que estava para assistir a uma grande mudança de sentido. A peça, Os Saltimbancos, de cunho político, subversiva, completamente contra o sistema, quase de fundo comunista, ganhou viés ecológico. Os malvados, antes apenas "patrões", agora são traficantes de animais! Como assim... Para quê, com que razão?

Não consegui manter a cara boa para o resto do espetáculo. Chico Buarque se visse aquilo deveria era meter um belo processo. Uma educação antissistema, que sobrevive à censura ditatorial e tem lugar na memória de toda uma geração que hoje é composta por pais e educadores, não merecia tanto desacato. A única coisa que quis fazer depois do espetáculo foi fugir. Afinal não podia compactuar com aquela merda. Os Saltimbancos, que venceram a ditadura e ganharam versão dos Trapalhões, rendidos ao politicamente correto. Uma pena. E é chato demais isso. Tomara que não perpetue.

No player o cd que acabei de comprar, John Lennon, Power to the people (edição remasterizada de 2010 com dvd).

Pissed

Geralmente escrevo uma lista, no começo do ano, de coisas a fazer. Dieta, estudar, malhar, aprender a dirigir. E de coisas a comprar. Mac book air. Mas resolvi fazer, de cara, a lista das coisas que têm-me irritado atualmente. Verdade é que ando fácil de contrariar, mas verdade maior é que ando sem tempo ou fôlego de expurgar minhas irritações na esteira ergométrica. Então, à lista:

1. Primeiro lugar absoluto para gente que reclama de tudo. Seja o ar condicionado ligado, seja o calor, seja o cheiro do detergente, enfim, minha grande irritação hoje em dia está em gente chata. O que ando fazendo para mudar isso: nada, mas resolvi que em meu futuro escritório o ar condicionado ficará a constantes 20 graus e que provavelmente muito poucas mulheres trabalharão comigo. Só as que tiverem um visom em casa, o que não é ecologicamente correto.

2. Reunião. Não aguento mais pelo menos uma reunião semanal para discutir besteira. Soube de fontes seguras que na última semana, enquanto eu estava de cama, fizeram reunião sobre o uso de clipes de papel, o que é mais nonsense que a reunião do número 2 do ano passado. Estou a uma vírgula de sair da sala na próxima reunião inútil, sob o prejuízo de me acharem mais doido que o habitual.

3. Telefonemas de telemarketing. Está na lista porque recebo pelo menos um por dia. Mas já não atendo, graças ao identificador de chamadas. Coitados dos meus amigos de SP se trocarem de telefone e ligarem avisando. 95% das ligações são de lá.

4. Gente inútil e/ou sem iniciativa. Chances altas de serem meu próximo estouro, daqueles em que vou baixar meu lado B adormecido e soltar gritos para ouvirem do outro lado da rua. Também, provavelmente, quando eu o fizer, dirão que enlouqueci e acabará em demissão por justa causa.

5. Prazos apertados. Ok que eu vivo com prazos apertados desde o primeiro dia de trabalho. Porém vejo para breve um dia que não vou mais cumprir um prazo e vai dar merda. Muita.

Resumindo, dos cinco quesitos de irritação acima, quatro estão diretamente associados ao meu trabalho. O que significa que perdi vida social, certamente, e que está na hora de reavaliar o meu emprego. O ano dirá. Ou a minha primeira surtada de 2011 dirá. Ou pularei fora do barco.

Trilha: Kate Bush, The Song of Solomon (1993).

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Chacoalhando

Na década de 1980, quando algumas pessoas eram crianças, eu inclusive, existia um tipo de medicamento parecido com xarope que se chamava "remédio em suspensão". Tinha uma parte líquida e uma parte mais sólida e a mãe da gente, na hora de servir, chacoalhava para misturar. Lembro de um sabor morango. Pois bem.

[Acho que não é a primeira vez que uso a analogia com o remédio em suspensão para retomar os escritos após um hiato. Mas tenho 99% de certeza de que essa ideia não é exatamente inédita, alguma criatura no mundo já fez a mesma comparação e ninguém vai voltar no tempo procurando algo que escrevi antes só para conferir. Eu não vou.]

Assim como o remédio, em suspensão, minha vontade de escrever estava parada, precisando de algum tipo de agitação para desencadear qualquer iniciativa. Porém pela lei da inércia algo que está parado tende a permanecer parado, a preguiça impera, a gente arranja tempo para tudo menos escrever, lá se foram meses. Nesses dias, enquanto produção escrita, dois textos para esse blog apagados no primeiro parágrafo, uma redação para o Enem, questões de vestibular e só.

Não pretendo relatar tudo o que aconteceu comigo nesse intervalo de tempo, não faz muita diferença ou, melhor, cabe em pouco espaço: engordei como um porco na ceva, fiz cursinho, estudei mediocremente, fiz vestibular, arranquei dente [e fui a um show de metal]. O resto não importa.

Importa de hoje em diante. Quero restabelecer um mínimo de rotina saudável (mental e fisicamente) para mim, e escrever faz parte do processo. Ajuda desde a tirar da cabeça aquelas coisas cotidianas, picuinhas que nos deixam doidos, até a refletir melhor sobre algo realmente importante. Escrever, para mim, mais que um ato de tentar aparecer e conquistar você, leitor, através das minhas voltas em torno de um mesmo ponto, é principalmente um ato introspectivo/reflexivo extremamente saudável. Por isso, e mais para isso, é bom estar de volta.

Pensei em mudar de endereço, recomeçar, e vi que não. Já estou recomeçando coisa demais e o endereço seria só detalhe. Talvez eu peça pra Rosi uma cara nova, a saber.

Como sempre é bom ter uma novidade, encerro contando um segredo. Vez por outra escrevo com música, para melhorar o meu foco [coisas de quem tem desvio de atenção]. Esse texto foi escrito ao som de Regina Spektor. Álbum Begin to hope (2006). Sempre que acontecer de eu escrever com playlist aviso aqui no fim.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Empirismo

Chacrinha, parafraseando Lavoisier, dizia que na televisão nada se cria, tudo se copia. Isso tanto é verdade que qualquer nova ideia é transformada e repetida à exaustão, revista e sampleada pelas emissoras em busca de manter a fidelização do público, aumentar a audiência e, no frigir dos ovos, sobreviver. Nós, consumidores de mídia no início do século 21, demos o azar de nascer na era dos reality shows. Nossos avós ouviram O direito de nascer no rádio a válvula, nós assistimos ao Big Brother, nossos netos terão, talvez, alguma coisa no estilo Running Man ou Truman Show. Ou, mais provavelmente, consumirão produções específicas criadas por encomenda para seus aparelhos móveis interativos em um nível de personalização tão alto que será preciso rever conceitos de mass-media, relações de consumo, propaganda etc. Algo que, olhando bem, não é exato especulação.

De todo modo esse não é um paper acadêmico, não pretendo discutir tecnologia de comunicação, informação e reprodutibilidade em um blog pessoal. Não fiz isso na faculdade e não vai ser aqui o meu campo de redenção. O título, empirismo, resume a real proposta. Antes, porém, vamos para o tempo presente pensar o Big Brother ou qualquer programa do gênero à escolha. Um senso comum: o ser humano médio tem curiosidade pela vida alheia. Por isso, talvez mais por isso que qualquer outro motivo, existem janelas (e cortinas). A janela, essa que fica na parede, é método primitivo, até certo ponto seguro, ainda utilizado, para se captar informações do mundo externo e, também, transmitir informação. Se chego na janela do meu quarto e o casal do apartamento vizinho está nos dias de amor, magia e sedução, sou culpado por ter visto algo? Seriam eles mais ou menos responsáveis por terem deixado a cortina aberta? Cada um analise a situação a seu jeito, lembrando que o vizinho pode muito bem perceber que está sendo visto e jogar um sapato ou dar um tiro. Conjecturas.

Aproveitando o senso comum, alguém resolveu industrializar o voyeurismo e transportar a janela da parede para a sala de tevê, atraindo um público razoável, anunciantes dispostos a pagar por propagandas até certo ponto espontâneas, e alguns espectadores, eu entre eles, que compram o direito de exercer a observação do alheio em tempo integral. Já passei do estágio de ter vergonha de assumir algo, respondo pelos meus atos. Continuando. Com os reality shows vieram clichês como "isso é um jogo" ou "só quem está lá dentro sabe de verdade como é". Surgiu também a classe dos "teóricos de reality show". Gente que analisa o comportamento do outro, sem necessariamente ter habilitação em psicologia, e que, por vezes, se coloca no lugar daquele outro, dizendo qual seria sua atitude frente uma situação vivenciada no programa. Esse talvez seja outro lado que atraia parte considerável do público: a possibilidade de fantasiar sobre "como seria comigo se eu estivesse ali", dentro de uma experiência "real", na direção contrária das novelas, que por definição são obras fictícias e acabam trabalhando outro tipo de sensação.

Acredito que muita gente concorde com a afirmativa de que teorizar ou fantasiar sobre uma possível atitude frente a determinado acontecimento é totalmente diferente da vivência do fato. Ou seja, por mais que você imagine como será sua reação quando alguma coisa acontecer (uma demissão, por exemplo), só quando aquilo acontece, mesmo assim em função de um sem-fim de variáveis, dá para dizer que "na situação x eu ajo de modo y". Empirismo. Daí o fato de praticamente todos os participantes desse tipo de programa soltarem o famoso "só quem está lá dentro sabe de verdade como é". Afinal, além de conviver com estranhos, existe o clima de programa de tevê, alguma "censura" de não poder falar tal coisa, bronca de diretor, fazer o número dois com uma câmera (ainda que supostamente desligada) em cima etc. Fora a grande frustração de não ser exatamente o esperado. Seja lá qual for o "esperado", o "real" será bastante diferente. Essa afirmativa vale para a vida como um todo.

Chegamos finalmente ao que interessa: a noção de que existem "teóricos" e "participantes" de reality shows, e que estes constituem categorias distintas. Os primeiros analisam a situação e discorrem sobre ela sem necessariamente terem passado por aquilo (alguns ex-participantes comentam edições posteriores dos programas, o que, na linha de raciocínio que apresento aqui, daria a eles maior credibilidade), os outros passaram por aquilo e sabem como é o processo por um ângulo diferenciado. Empírico. Por analogia, dá para transportar teóricos e participantes para outras situações de vida.

Está no plano do conhecimento coletivo que colocar a mão no fogo queima, pôr o dedo na tomada dá choque, comigo-ninguém-pode é planta tóxica, manga com leite não faz mal, chá de boldo cura ressaca. E por mais óbvio que isso possa parecer, precisou de um bendito qualquer morrer comendo comigo-ninguém-pode para comprovar. Pelo menos uma criatura na face da Terra morreu envenenada, afirmo sem fazer pesquisa em lugar algum. Por outro lado, existem coisas que não vão para esse tipo de plano de conhecimento, principalmente por envolverem experiências sensoriais, afetivas ou sinestésicas, que demandam vivência. Sexo, por exemplo. A "primeira vez" é diferente para cada um, não dá para teorizar nem estabelecer regra. Festa de formatura. Casamento. Nascimento de filho. Enem.

Sim, no parágrafo de cima está escrito Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, que eu fiz. Em resumo resolvi me reinventar, dar uma chance para a vida acadêmica (ou para o destino) depois de um longo tempo, tentar uma carreira nova, e me inscrevi para o curso de direito na UFMG. Por isso fiz o Enem, o exame é a "primeira etapa" do vestibular. Fui um entre três milhões que sofreram a prova, não tive problema algum. Assim como o Big Brother, no Enem o clichê "só quem fez sabe como é" é perfeitamente aplicável. São dez horas de uma prova não "difícil", mas "desgastante", à qual você dedica parte de seu tempo e algum fosfato. Como em toda avaliação, existe uma tensão em torno, a pessoa acaba por inserir seu emocional no processo e existem logicamente reações diversas. Humanos em estado de tensão, experimentação, avaliação, competição. À exceção do intervalo de tempo e do fato de não haver câmeras, o Enem é uma interessante experiência de "reality".

Para os "teóricos", a vivência do Big Brother é algo fácil que eles tirariam de letra. Para quem não fez o Enem (categoria na qual eu me incluía), a prova é algo idiota que qualquer um faz com o pé nas costas. Na verdade faz sim: desde que sentado no conforto do seu lar, com calma, tempo, comida e água. Lá, na hora que vale, só quem foi sabe como é, mesmo. Daí minha imensa frustração quando da notícia de que a prova havia sido suspensa (já cancelaram a liminar, mas o processo ainda não acabou, tudo pode acontecer). Eu me senti pessoalmente desrespeitado por terem pegado meu esforço (licença, sou egoísta), amassado como se fosse jornal velho e jogado no lixo. Entendo que, sim, pessoas se prejudicaram. Que elas devem, sim, ter uma nova oportunidade. É justo e a mim não incomoda. Mas é preciso mesmo que, para se fazer justiça, todos tenhamos de passar pelo desgaste uma vez mais? Qual o grau de compreensão da pessoa que decidiu isso? Em algum momento foi considerado que, além de estudantes do ensino médio, havia trabalhadores que faltaram no emprego, pessoas mais velhas que precisam da nota para uma colocação profissional, enfim, uma diversificada gama de cidadãos que investiram tempo útil e dinheiro naquilo? A decisão, arbitrária, veio de um "teórico". Que não sofreu aquela experiência e, talvez, não tenha apreendido bem a importância de sua decisão no campo emocional e profissional de três milhões de pessoas, nem todas elas adolescentes na faixa dos 18 anos.

Em uma situação ideal, no futuro, boa parte dos profissionais na ativa terão passado pelo Enem e serão mais condescendentes com erros. Que, por sorte e por sermos todos sujeitos a falhas, acontecerão. Do ponto de vista de quem "sofreu" a prova posso dizer que não há motivo para cancelamentos. Mas quem sou eu, mero "participante", para discutir com um "teórico", não é verdade? Por enquanto esperamos. Eu e meus colegas de cursinho. Em tempo: agora estudo à noite, razão do grande intervalo entre textos. Até breve!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Advertência

Os textos contidos nessa página refletem a observação e interpretação de momentos específicos. Reservo-me, como qualquer ser humano, o direito de ser incoerente, passional, depressivo e por vezes cruel se assim o couber. Sou, principalmente, um observador da vida, um "colhedor de absurdos", como venho me chamando. E por vezes pego recortes que, dependendo do leitor, podem soar como verdadeiras punhaladas.

Escrever é um ato de rasgar, por vezes. Para ficar escrito o papel precisa ser violado pelo instrumento. Às vezes duro, às vezes prazeroso, por vezes dispensável. Mas ocorrido, acontecido.

Segunda advertência: não apago meus textos. Porque, mesmo possível, seria como tentar reescrever o passado. É uma artificialidade que a mim não cabe. Interpretem como quiser.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Exercício de memória : personagens

Alguns amigos postaram em seus perfis do Facebook esses últimos meses uma brincadeira dos 15 mais. Os 15 livros, 15 filmes, 15 músicas que marcaram a sua vida, fizeram chorar, vão ser sempre lembrados. O desafio, digamos assim, era retornar a mensagem em 15 minutos, compartilhando a lista com o amigo e passando para frente a "corrente" (na falta de um melhor termo). Interessante mas não participei de nenhuma brincadeira.

Em primeiro lugar porque sou bobo, chato e feio. Depois porque não tem como eu revirar meu baú mental e pinçar, em um espaço de tempo tão reduzido, 15 aleatoriedades realmente representativas. Mas, sendo mais chato ainda, como gostei da ideia resolvi subvertê-la e preparar uma lista de personagens (reais ou não) que marcaram minha vida. Para o bem e para o mal. Devem ser 15, mas talvez falte (ou sobre) algum. A ordem de entrada é totalmente randômica, até pensei fazer ordem alfabética, mas vou deixar a memória mandar. Clique no nome da personagem para vê-la no Youtube.

O espelho mágico da Branca de Neve
Começando de cara com o espelho, um dos coadjuvantes mais interessantes, em minha modesta opinião, do cinema de animação. Nem bom nem mau, o espelho diz a verdade. E filosofa vez por outra. Fora que não tem medo de responder à rainha má que existe alguém mais belo no reino. A rainha, mui respeitosamente, ouve e em momento algum dá uma pedrada no vidro e faz o espelho virar mil.

Malévola
Ainda no cinema de animação, Malévola é a vilã e não se discute. Pérfida e cruel como deve ser, irritada, irritante e irritável, musa maligna da minha geração. Bia Falcão aprendeu com Malévola. Sue Sylvester aprendeu com Malévola. Eu... bem, eu também!

Cassandra
Personagem de Eurípides, personagem da Guerra de Troia, pitonisa, enlouquecida e amaldiçoada. Cassandra foi condenada à privação da confiança. Ela sempre dizia a verdade, e nunca acreditavam nela. Para representar a personagem da peça em que atuei, escolhi a interpretação de Geneviève Bujold no filme As Troianas, de 1971. Com Vanessa Redgrave no papel de Andrômaca e Katharine Hepburn arrasando como Hécuba. Taltíbio, personagem que interpretei no teatro, está também no trailer do link.

O Advogado
"Sim, eu sou um homem e choro. Um homem não tem olhos? Não tem também mãos, sentidos, inclinações, paixões? Porque é que um homem não devia chorar?" Estudei O Sonho, de August Strindberg, aos 15-16 anos. Seria uma peça que eu remontaria hoje, e faria exatamente o mesmo personagem: o Advogado. Arquetípico, não? E pensar que na época, lá no comecinho, queria mesmo ser o Oficial. Foi O Sonho que me levou a Bergman, e à personagem abaixo.

Ismael Retzinsky
Ismael é um garoto mantido num quarto fechado. Extremamente sedutor, assim como o pequeno universo em que vive. Andrógino, é interpretado por uma atriz (Stina Ekblad) em Fanny e Alexander. Se eu pudesse em meu leito de morte escolher uma cena de filme para assistir seria, sem dúvida alguma, essa.

Don Vito Corleone
A descrição mais difícil de ser feita sem cair em clichê. Então resumo assim: canceriano. Pronto.

Bacana
Qual menino da minha idade não queria ser o Bacana? O personagem, como não poderia deixar de ser, estigmatizou o Jonas Torres de um jeito que o moço foi virar marinheiro nos EUA. Mas o Bacana era bacana demais! E a Armação Ilimitada tinha, acho, algum roteiro. E tinha Zelda, Ronalda, o Chefe...

Stalker
Stalker foi um filme que só assisti uma vez, e acho que provavelmente dormi em parte dele. Produção típica do Tarkovsky, clima onírico com longas tomadas, o principal do personagem Stalker é mesmo o nome. Toda vez que alguém menciona o termo "stalker" (extremamente comum nos dias de hoje) são essas imagens que me vêm à cabeça na hora.

Fania Fenelon
A amarga sinfonia de Auschwitz traz Vanessa Redgrave (de novo ela) com a cabeça raspada interpretando uma prisioneira judia que sobrevive a Auschwitz por causa da música e de uma orquestra de presidiárias. A Fania real não gostou muito de ter sido interpretada pela Vanessa. Pelo que lembro do filme, foi um dos que mais chorei em toda minha vida.

Eduardo II e Gaveston
Referência ao rei da Inglaterra, o filme de Derek Jarman ainda me marca até hoje. Não tenho como escolher apenas um do casal gay real. Mas a cena mais marcante do filme, para mim, é o menino maquiado, de brincos, sobre a jaula do rei.

Macunaíma
Consigo descrever exatamente a noite em que assisti a esse filme na casa da minha mãe e fiquei chocado com o parto do Macunaíma. Não lembro se para a faculdade (dela) ou para a escola (minha), Macunaíma apareceu lá em casa para ajudar na leitura de um livro. Até hoje não gosto quando o Grande Otelo vira Paulo José.

Mary Matoso
Das melhores personagens da Patrícia Travassos em uma novela que marcou a minha adolescência. Dessas coisas de querer chegar em casa logo só para ver Vamp. Na memória a cena em que ela, de posse do comando da rádio da cidade, obriga o lugar inteiro a ouvir Recuerdos de Ypacaraí na sua linda voz de gralha velha.

Baronesa Eknésia
Se a telenovela é a educação sentimental do brasileiro, a Baronesa com certeza é a melhor professora. De brinde a Rainha Valentina, em uma interpretação impecável da Tereza Rachel.

Beato Salu
Eu tinha medo do Beato Salu, sabia?

Perpétua
Para encerrar com uma vilã. Figura inesquecível com a misteriosa caixa branca, na qual ela guardava o membro decepado do falecido marido. A minha mãe me proibiu de assistir a Tieta, porque chamei a emprega de fedaputa. Por isso tenho um lapso de memória de certos trechos da novela.

A lista pode aumentar, só que vou parar aqui. Afinal são 15 apenas.

*Update: pouco tempo depois de eu postar vi que o link de A amarga sinfonia de Auschwitz foi "banido" do Youtube e não achei outro. Deixei a foto da Vanessa no lugar.

sábado, 16 de outubro de 2010

Sobre o amor: re[in]flexões

Uma das grandes mentiras vendidas em loja é o jogo de cama de casal 4 peças: dois lençóis, duas fronhas e só. Jogo de cama (de casal) deveria ter no mínimo um lençol extra, para evitar que um roube o lençol do outro no meio da noite. Não sei como era no tempo de nossas avós, mas tenho cá comigo que essa ideia de duas pessoas sob um mesmo pano deve ter nascido com o conceito de amor romântico, aquele inventado em algum começo de século.

Vejamos a tradição amorosa anterior à literatura romântica – aquela com amores impossíveis, tragédias arrebatadoras e melodramas de cortar o coração, escritos por Shakespeare, Tomás Gonzaga (o da Marília de Dirceu), Glória Magadan e Janete Clair, entre outros.

Amores se arranjavam, amores eram desvinculados da instituição casamento. O ato de casar era visto como negócio que, e principalmente, por ser negócio, durava toda uma vida. O convívio entre os arranjados viria a tornar a relação, se não sólida, suportável na maioria das vezes. Assim como nos dias de hoje, relacionamentos abusivos existem, e aqui quero enquadrar a questão apenas da maioria, deixando para dramaturgos a função de explorar melhor as donzelas fugidas com cavaleiros e as escravas raptadas tornadas senhoras de engenho.

Casamentos [não amores] davam certo, duravam. Amores, como a expectativa de vida, eram aventuras de curto prazo e algumas lágrimas.

Até que alguém resolveu dar nome e sentido ao conceito de amor que temos hoje: esse que passa na novela e termina quase sempre em final feliz. Também dá as cartas no que chamamos comédia romântica, nas literaturas de banca de revista (Bianca, Sabrina, se é que ainda vendem isso), na programação do rádio. Tudo ou quase fala de amor, da expectativa do amor, da realização do amor e dos felizes para sempre sobe o letreiro.

A questão, claro, não é o encantamento inicial. Vive-se um tempo em que casamento continua sendo negócio [não duvide], porém com uma margem de risco superampliada e a inevitável sensação de que vai dar errado a qualquer momento. Por que seria, pergunto.

Se temos maior acesso a informação, maior possibilidade de escolha [rá, maior possibilidade implica também em mais chances de erro] e principalmente liberdade de escolha, qual a razão de um relacionamento por definição livre, iniciado pelo conceito externalizado do Amor, ou seja, nos moldes da educação sentimental pregada pelos melodramas, se somos pessoas privilegiadas por conseguir reunir as condições idealizadas por uma gama de autores ditos românticos, qual a razão para tudo de repente ir por água abaixo?

Pergunta que respondo assim: pela ampla falta de respeito próprio. Entenda, não digo que as pessoas não se respeitam mais umas às outras, talvez até se respeitem mais do que deveriam. Porém esqueceram-se de se dar o respeito. Eu mesmo, mea culpa, assumo, sou um intenso desrespeitador de mim. Não levanto limites, não imponho barreiras e, grave erro, aceito muita coisa sem discutir. Conviver é ceder em partes, com algum tipo de contrapartida. Mas quando se cede demais é como aquela famosa historinha: anteontem mataram o gato e não fiz nada, hoje voltaram e queimaram a minha casa, violentaram minha mulher e eu... Permaneci fazendo nada.

Não há mais nada o que se fazer. Apenas dar chance ao fim e a um possível recomeço, seja qual for. Recomeçar é sempre bom e necessário. Sem nunca, claro, abandonar o que se aprendeu. Por agora tenho uma grande vontade de fim. E deixo uma dica para quem for montar casa: compre um lençol extra para todo jogo de casal. Por ora, agora, fim.