Estava lendo a revista Vida Simples desse mês, uma matéria sobre ano sabático. Para o desavisado de plantão, por mim a matéria teria começado desse jeito: ano sabático não é um ano em que a pessoa se dedica ao estudo e aperfeiçoamento da bruxaria. Muito menos aquele tempo que o iniciante do candomblé passa na camarinha. É simplesmente uma época em que o indivíduo dedica a si próprio, a um projeto de vida, a uma viagem longa ou até mesmo ao ócio. Um espaço de tempo para se voltar a novos projetos que não o trabalho cotidiano seria, talvez, a melhor definição.
A matéria diz que "um período sabático faz parte dos planos de muita gente, mas poucos são aqueles que o colocam em prática". Talvez porque, complemento, trocar o emprego fixo por um tempo para pensar em algo não necessariamente rentável esteja um pouco abaixo da capacidade financeira do cidadão médio brasileiro. Eu mesmo, 32 anos, brasileiro, sem filhos, retrógrado e reacionário, não me vejo "dando um tempo" no emprego para escrever um romance, por exemplo.
Mais interessante foi ver justamente livros dedicados ao período sabático. Fuja por um ano, Um tempo para crescer e deve haver mais literatura específica. Livro para tudo nunca falta. Só assusta um pouco pensar alguém que tira um período sabático para escrever sobre... sabático. Afinal, se o sabático não é dedicado ao ofício (também conhecido pela expressão trabalho), e se a escrita é um ofício, por vezes duro, inclusive, seria isso paradoxo ou não?
Esse blog não está em período sabático, quem o escreve muito menos. Vivo o famoso período pré-férias, o que significa que de sabática a vida não tem é nada. Trabalho sobra e parece que não deve faltar pelos próximos dias, meses, anos. Segundo a revista, férias não são período sabático. Férias, segundo o autor, também conhecido pelos pronomes "eu" ou "mim" (que procuro evitar ao máximo) são para descanso...
Durante a ausência (daqui) fiz o de sempre: comi, dormi, trabalhei, fui ao teatro e ao cinema, vi séries na tv. De novidade estreei em óperas e venho lendo um livro para o vestibular. Não sei se vou fazer a prova ainda e nem quero comentar muito, justo para evitar grandes expectativas. Na minha ausência andei tocando meu bonde e observando pessoas e inventando histórias. Para, inclusive, ter o que escrever nessas bandas de cá.
terça-feira, 29 de junho de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
Orientações políticas
Uma das promessas que fiz para 2010 foi não comentar sobre o Big Brother e muito menos sobre política. O que em ano eleitoral é praticamente impossível, mas permaneço tentando. Até porque é máxima que religião, futebol e política não se discutem. E fim.
Porém quero abrir uma pequena exceção para dizer algumas coisas sobre política. Não para me posicionar sobre tal candidato, dizer que alguém é melhor ou pior, tampouco para contar em quem vou votar. Por sorte, no Brasil, declarado Estado Democrático de Direito desde 1988, o voto é secreto e podemos mudar de opinião até no dia da eleição. A única opinião formada que tenho a respeito das eleições de 2010 é de que o próximo presidente do Brasil, homem ou mulher, será alguém feio. E meus comentários sobre política vão um pouco além do feijão com arroz no qual diversos blogs e redes sociais devem se transformar a partir do fim da Copa do Mundo.
Em 2008, aqui em Belo Horizonte, tivemos uma campanha "desigual". Entre aspas. O candidato da situação, apoiado publicamente pela máquina estatal (prefeitura e governo), versus um "azarão" (entre aspas) com tendências populistas. Resumindo a ópera para quem não mora pelas bandas de cá, as eleições foram uma bela troca de ofensas de ambas as partes, uma disputa deselegante na qual as propostas dos candidatos importavam menos do que quem tinha o cacique (ou pinto) maior. Ganhou o candidato da situação.
O parágrafo acima é contestável até certo ponto. Dizer que a máquina administrativa não foi usada nas eleições de BH em 2008 é a mesma coisa que dizer que o céu é flicts. Não quero abrir precedentes para contra-argumentações, ou defesa de tal ou tal pessoa. Principalmente porque as eleições passaram e o prefeito eleito vem conseguindo, dia após dia, mostrar o que ele realmente é: um bosta (fosse 1970 eu seria investigado pelo DOPS). Para quem duvida, sugiro dar uma lida nesse blog. Detalhe: nem vou comentar (ainda) sobre o tanto de casa que passou a ser demolida após a posse do prefeito da união.
Mas voltemos ao fio da meada. Baseado na campanha que vivenciei por aqui, na cidade em que moro, percebi que falta uma coisa à grande maioria dos candidatos: etiqueta. Não estou dizendo que todo mundo para ser candidato deveria frequentar a Socila, e a minha postura de que deveria ter "teste de admissão" para candidato é altamente questionável, uma vez que excluiria os analfabetos e pessoas que não soubessem a tabuada. Porém eu acho (mesmo) que eleição se disputa com elegância, e que a vitória nas urnas deveria ser a celebração do bom combate entre ideias e ideais. Foi pensando nisso que resolvi propor, até porque não achei no Google, um pequeno Guia de boas maneiras para o candidato. Algo mais ou menos assim:
Prezado Candidato, seja muito bem-vindo às eleições deste ano! Torcemos por seu sucesso e confiamos em seu potencial! É a sua participação no pleito que torna possível o exercício da democracia e da cidadania no nosso país. Gostaríamos de lembrar que, para assegurarmos o direito pleno de todos os envolvidos na corrida eleitoral, é preciso que você obedeça a algumas pequenas regras:
1. Seja educado. Ideias brigam, pessoas não. Não esmurre, não bata, não chute a bunda do seu adversário. Nem de brincadeira.
2. Tome banho todos os dias, escove os dentes, use desodorante. Lembre-se: o corpo a corpo é fundamental na campanha.
3. Contrate um marqueteiro. Contrate também um fonoaudiólogo. Se tiver um pouco mais de dinheiro, um stylist também ajuda muito.
4. Economize nos santinhos, nos cartazes com a sua linda foto no poste, nos muros pichados. Se isso funcionasse, Santo Expedito e os skatistas da Praça Sete não perdiam uma.
5. Lembre-se: você tem (ou teve) mãe. Provavelmente tem família. Antes de dizer que o seu adversário é isso ou aquilo, pense se você ficaria confortável se alguém dissesse o mesmo da sua mãe.
6. Não prometa o que não tem condição de cumprir. Faça uma pesquisa e descubra as funções do cargo que você está disputando. Lembre-se: deputado não constrói estrada nem acaba com a fome no Vale do Jequitinhonha.
7. Não faça spam, não faça corrente, não entupa o e-mail do eleitor com as suas propostas e projetos. Existem métodos mais inteligentes do que isso. Volte ao item 3.
8. Não subestime seu adversário. Não o transforme em um bobo só para vencer a eleição. Seja íntegro e saiba ressaltar os seus pontos fortes. Se o marqueteiro insistir em fazer faixas dizendo que o adversário usa fraldão de velho, demita o marqueteiro.
9. Se eleito, você vai representar uma grande parcela da população que confiou em você. Lembre-se disso quando estiver por lá, e não apenas nas próximas eleições.
10. Em caso de derrota, aceite. Daqui a dois anos você pode concorrer de novo. Volte ao trabalho de cabeça erguida e pare de se lamentar.
Finalmente, não se esqueça: você está disputando um cargo de prestador de serviços à comunidade, com a pretensão de defender o interesse coletivo. A sua casa de praia não é interesse coletivo, mesmo que a sua família seja imensa. Lembramos que roubar, desviar dinheiro, fazer ato secreto, esconder dinheiro em meia, são desvios de decoro e podem vir a ser investigados.
No mais, boa sorte! Esperamos ter você conosco no ano que vem!
Porém quero abrir uma pequena exceção para dizer algumas coisas sobre política. Não para me posicionar sobre tal candidato, dizer que alguém é melhor ou pior, tampouco para contar em quem vou votar. Por sorte, no Brasil, declarado Estado Democrático de Direito desde 1988, o voto é secreto e podemos mudar de opinião até no dia da eleição. A única opinião formada que tenho a respeito das eleições de 2010 é de que o próximo presidente do Brasil, homem ou mulher, será alguém feio. E meus comentários sobre política vão um pouco além do feijão com arroz no qual diversos blogs e redes sociais devem se transformar a partir do fim da Copa do Mundo.
Em 2008, aqui em Belo Horizonte, tivemos uma campanha "desigual". Entre aspas. O candidato da situação, apoiado publicamente pela máquina estatal (prefeitura e governo), versus um "azarão" (entre aspas) com tendências populistas. Resumindo a ópera para quem não mora pelas bandas de cá, as eleições foram uma bela troca de ofensas de ambas as partes, uma disputa deselegante na qual as propostas dos candidatos importavam menos do que quem tinha o cacique (ou pinto) maior. Ganhou o candidato da situação.
O parágrafo acima é contestável até certo ponto. Dizer que a máquina administrativa não foi usada nas eleições de BH em 2008 é a mesma coisa que dizer que o céu é flicts. Não quero abrir precedentes para contra-argumentações, ou defesa de tal ou tal pessoa. Principalmente porque as eleições passaram e o prefeito eleito vem conseguindo, dia após dia, mostrar o que ele realmente é: um bosta (fosse 1970 eu seria investigado pelo DOPS). Para quem duvida, sugiro dar uma lida nesse blog. Detalhe: nem vou comentar (ainda) sobre o tanto de casa que passou a ser demolida após a posse do prefeito da união.
Mas voltemos ao fio da meada. Baseado na campanha que vivenciei por aqui, na cidade em que moro, percebi que falta uma coisa à grande maioria dos candidatos: etiqueta. Não estou dizendo que todo mundo para ser candidato deveria frequentar a Socila, e a minha postura de que deveria ter "teste de admissão" para candidato é altamente questionável, uma vez que excluiria os analfabetos e pessoas que não soubessem a tabuada. Porém eu acho (mesmo) que eleição se disputa com elegância, e que a vitória nas urnas deveria ser a celebração do bom combate entre ideias e ideais. Foi pensando nisso que resolvi propor, até porque não achei no Google, um pequeno Guia de boas maneiras para o candidato. Algo mais ou menos assim:
Prezado Candidato, seja muito bem-vindo às eleições deste ano! Torcemos por seu sucesso e confiamos em seu potencial! É a sua participação no pleito que torna possível o exercício da democracia e da cidadania no nosso país. Gostaríamos de lembrar que, para assegurarmos o direito pleno de todos os envolvidos na corrida eleitoral, é preciso que você obedeça a algumas pequenas regras:
1. Seja educado. Ideias brigam, pessoas não. Não esmurre, não bata, não chute a bunda do seu adversário. Nem de brincadeira.
2. Tome banho todos os dias, escove os dentes, use desodorante. Lembre-se: o corpo a corpo é fundamental na campanha.
3. Contrate um marqueteiro. Contrate também um fonoaudiólogo. Se tiver um pouco mais de dinheiro, um stylist também ajuda muito.
4. Economize nos santinhos, nos cartazes com a sua linda foto no poste, nos muros pichados. Se isso funcionasse, Santo Expedito e os skatistas da Praça Sete não perdiam uma.
5. Lembre-se: você tem (ou teve) mãe. Provavelmente tem família. Antes de dizer que o seu adversário é isso ou aquilo, pense se você ficaria confortável se alguém dissesse o mesmo da sua mãe.
6. Não prometa o que não tem condição de cumprir. Faça uma pesquisa e descubra as funções do cargo que você está disputando. Lembre-se: deputado não constrói estrada nem acaba com a fome no Vale do Jequitinhonha.
7. Não faça spam, não faça corrente, não entupa o e-mail do eleitor com as suas propostas e projetos. Existem métodos mais inteligentes do que isso. Volte ao item 3.
8. Não subestime seu adversário. Não o transforme em um bobo só para vencer a eleição. Seja íntegro e saiba ressaltar os seus pontos fortes. Se o marqueteiro insistir em fazer faixas dizendo que o adversário usa fraldão de velho, demita o marqueteiro.
9. Se eleito, você vai representar uma grande parcela da população que confiou em você. Lembre-se disso quando estiver por lá, e não apenas nas próximas eleições.
10. Em caso de derrota, aceite. Daqui a dois anos você pode concorrer de novo. Volte ao trabalho de cabeça erguida e pare de se lamentar.
Finalmente, não se esqueça: você está disputando um cargo de prestador de serviços à comunidade, com a pretensão de defender o interesse coletivo. A sua casa de praia não é interesse coletivo, mesmo que a sua família seja imensa. Lembramos que roubar, desviar dinheiro, fazer ato secreto, esconder dinheiro em meia, são desvios de decoro e podem vir a ser investigados.
No mais, boa sorte! Esperamos ter você conosco no ano que vem!
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Dez coisas
Quando comecei o texto anterior pensei fazer apenas uma introdução ao que realmente interessava. Porém o texto fluiu além da conta, e tive de dividir meu pensamento em partes. Então, prezado leitor, considere esse escrito como uma sequência da postagem logo abaixo, ok? Agradecido.
Ano passado ganhei um livro de listas: Os 10 mais. No site dá para o interessado ler algumas páginas da obra. Não vou entrar no mérito de quem tem prazer em fazer listas. Alguém que arruma a bagagem em meia hora (e leva metade da casa sempre, porque pode fazer frio) não faz listas quase nunca. Na verdade as listas que faço são quase sempre de metas a cumprir: anual (que, como disse em um texto anterior, funcionam) e, quando o trabalho aperta, de trabalho a ser feito durante o dia. Só. Lista de supermercado? Se em 2009 fiz três foi muita coisa.
De qualquer modo, é muito interessante ver o grande mercado das listagens. Veja que troquei o termo aqui, porque não me interessam, como disse, as listas. E sim o seu conteúdo. Uma procura básica no Buscapé mandou a lista de 37 (!) livros. Clique no link para ver tudo, aqui copio (e comento) o título de alguns:
1001 maravilhas naturais para ver antes de morrer (de tédio?); 1001 vinhos para beber antes de morrer (de cirrose?); 101 bares para beber antes de morrer (eu já fui a mais de 101 bares); 1000 lugares para conhecer antes de morrer (vem com um passaporte de companhia aérea?); 1001 comidas para provar antes de morrer (precisa mesmo?); 1001 filmes para ver antes de morrer (eu sei quem tem); 1001 discos para ouvir antes de morrer (procurando tem site para baixar todos).
Enfim. Coisa para fazer antes de morrer é literalmente o que não falta. O que pergunto, na verdade é: para quê? Qual vai ser a minha diferença no além-túmulo se eu tiver ido ou não a 1001 lugares, provado 1001 tipos diferentes de comida, fumado 1001 charutos e morrido de enfizema? Se eu for, talvez, a 980 dos lugares que o livro sugere, a minha vida não terá sido perfeita?
Listas de coisas a se fazer são meros reflexos da pressão que a sociedade atual exerce sobre o indivíduo. Um ser humano ordinário, classe média, trabalhando 40h por semana com um salário razoável, a menos que ganhe na Mega Sena e mude de classe social, nunca iria dar conta de viajar para 1001 lugares diferentes (1002 se contarmos aquela fazenda maravilhosa que só você conhece e, claro, não está na lista). Pelo simples fato de se ser "humano" e de ter "contas a pagar". As listas então são apenas elementos de um desejo decorativo. Existem não para ser feitas, e sim para alimentar uma imensa sensação de frustração e incompletude.
Preferível ater-me a metas mais significativas, e plausíveis, e guardar para o planejamento algo mais interessante que viajar a 1001 lugares em clima de excursão. Por exemplo: passar, como fez uma amiga, seis meses na França. Morar lá, viver um tempo. Sou da turma dos que não fizeram intercâmbio no colégio. Vou voltar tendo conhecido um só lugar, porém com certeza mais feliz do que se tivesse pego a excursão CVC Europa completa em 15 dias. Se é para sonhar, que eu sonhe com algo confortável.
Pensando assim resolvi, paradoxalmente, elaborar a segunda lista desse blog. Duas listas em um ano, para quem não faz listas, amedrontam. Segue então, a minha lista de 10 coisas que não quero fazer na vida (com comentários):
1. Viajar para a Índia. Ok, todo mundo tem um amigo que foi à Índia e achou lindo. Deve ser, não duvido. Para os outros. Eu sou muito pró-conforto e antissocial para me meter em um passeio desses. O mesmo se aplica a lugares como Machu Picchu, Marrocos, Serra Pelada e congêneres.
2. Comer cérebro de macaco (ou qualquer iguaria exótica do nível, como gafanhoto, olho de cabra, carne de cachorro etc.). A menos que eu esteja ilhado e que seja a única opção de comida, graças à globalização sempre haverá um Mc Donald’s. Em tempo: já comi escargot e carne de tatu. Bons, os dois.
3. Fumar ópio. Parei de fumar toda e qualquer coisa. O mesmo se aplica a orégano, sálvia, haxixe, vinho de garrafão e qualquer droga que não tenha experimentado na faculdade. Foi-se o tempo, meu barato agora é fluoxetina e diazepan. Só.
4. Comer baiacu. Está em classe separada das comidas exóticas porque teoricamente é um peixe como outro qualquer. Com o diferencial de que um pedaço pode matar. E quer maneira mais boba de morrer do que comendo um peixe?
5. Brincar de roleta russa. Pelos mesmos motivos acima, apesar de eu achar bala na cabeça uma morte mais digna que envenenamento de peixe. Mais suja também, mas isso é problema para a Sunshine Cleaning.
6. Ir pescar no Pantanal. Qualquer atividade que envolva as palavras "acampamento", "céu aberto" e "mosquito" não foi pensada para mim. Incluo na lista aqueles acampamentos de treinamento de guerra e o falecido programa No limite.
7. Zorbing. Não sabe o que é? Vá descobrir.
8. Comprar um trailer. Eu nunca compraria um trailer, eu nunca viajaria em um trailer, eu nunca dormiria em um trailer, eu nunca moraria em um trailer. A menos que esteja passando necessidade. Mas acho que prefiro morar embaixo de uma ponte. Pelo menos é mais Brasil.
9. Abrir uma empresa. Não nasci para administrar o meu dinheiro, que dirá cuidar de funcionário. Meu sonho sempre foi receber, entregar a grana na mão de alguém e dizer "tome conta". Desde que eu tenha um cartão de crédito ilimitado e nenhuma conta a pagar, perfeito.
10. Ter uma fazenda. Apesar de estar no sangue, virei urbano demais para me ver no interior, umas vaquinhas, umas galinhas, uma casa no campo onde eu possa compor muitos rocks rurais. Prefiro guardar meus (poucos) amigos, meus (muitos) discos e livros aqui por perto.
Deveria ter sido incluído o item 11: parir. Mas isso é inerente a todo indivíduo do sexo masculino, e só iria consumir espaço em um texto que acabou ficando grande demais e que deveria também ter sido cortado em duas partes.
Ano passado ganhei um livro de listas: Os 10 mais. No site dá para o interessado ler algumas páginas da obra. Não vou entrar no mérito de quem tem prazer em fazer listas. Alguém que arruma a bagagem em meia hora (e leva metade da casa sempre, porque pode fazer frio) não faz listas quase nunca. Na verdade as listas que faço são quase sempre de metas a cumprir: anual (que, como disse em um texto anterior, funcionam) e, quando o trabalho aperta, de trabalho a ser feito durante o dia. Só. Lista de supermercado? Se em 2009 fiz três foi muita coisa.
De qualquer modo, é muito interessante ver o grande mercado das listagens. Veja que troquei o termo aqui, porque não me interessam, como disse, as listas. E sim o seu conteúdo. Uma procura básica no Buscapé mandou a lista de 37 (!) livros. Clique no link para ver tudo, aqui copio (e comento) o título de alguns:
1001 maravilhas naturais para ver antes de morrer (de tédio?); 1001 vinhos para beber antes de morrer (de cirrose?); 101 bares para beber antes de morrer (eu já fui a mais de 101 bares); 1000 lugares para conhecer antes de morrer (vem com um passaporte de companhia aérea?); 1001 comidas para provar antes de morrer (precisa mesmo?); 1001 filmes para ver antes de morrer (eu sei quem tem); 1001 discos para ouvir antes de morrer (procurando tem site para baixar todos).
Enfim. Coisa para fazer antes de morrer é literalmente o que não falta. O que pergunto, na verdade é: para quê? Qual vai ser a minha diferença no além-túmulo se eu tiver ido ou não a 1001 lugares, provado 1001 tipos diferentes de comida, fumado 1001 charutos e morrido de enfizema? Se eu for, talvez, a 980 dos lugares que o livro sugere, a minha vida não terá sido perfeita?
Listas de coisas a se fazer são meros reflexos da pressão que a sociedade atual exerce sobre o indivíduo. Um ser humano ordinário, classe média, trabalhando 40h por semana com um salário razoável, a menos que ganhe na Mega Sena e mude de classe social, nunca iria dar conta de viajar para 1001 lugares diferentes (1002 se contarmos aquela fazenda maravilhosa que só você conhece e, claro, não está na lista). Pelo simples fato de se ser "humano" e de ter "contas a pagar". As listas então são apenas elementos de um desejo decorativo. Existem não para ser feitas, e sim para alimentar uma imensa sensação de frustração e incompletude.
Preferível ater-me a metas mais significativas, e plausíveis, e guardar para o planejamento algo mais interessante que viajar a 1001 lugares em clima de excursão. Por exemplo: passar, como fez uma amiga, seis meses na França. Morar lá, viver um tempo. Sou da turma dos que não fizeram intercâmbio no colégio. Vou voltar tendo conhecido um só lugar, porém com certeza mais feliz do que se tivesse pego a excursão CVC Europa completa em 15 dias. Se é para sonhar, que eu sonhe com algo confortável.
Pensando assim resolvi, paradoxalmente, elaborar a segunda lista desse blog. Duas listas em um ano, para quem não faz listas, amedrontam. Segue então, a minha lista de 10 coisas que não quero fazer na vida (com comentários):
1. Viajar para a Índia. Ok, todo mundo tem um amigo que foi à Índia e achou lindo. Deve ser, não duvido. Para os outros. Eu sou muito pró-conforto e antissocial para me meter em um passeio desses. O mesmo se aplica a lugares como Machu Picchu, Marrocos, Serra Pelada e congêneres.
2. Comer cérebro de macaco (ou qualquer iguaria exótica do nível, como gafanhoto, olho de cabra, carne de cachorro etc.). A menos que eu esteja ilhado e que seja a única opção de comida, graças à globalização sempre haverá um Mc Donald’s. Em tempo: já comi escargot e carne de tatu. Bons, os dois.
3. Fumar ópio. Parei de fumar toda e qualquer coisa. O mesmo se aplica a orégano, sálvia, haxixe, vinho de garrafão e qualquer droga que não tenha experimentado na faculdade. Foi-se o tempo, meu barato agora é fluoxetina e diazepan. Só.
4. Comer baiacu. Está em classe separada das comidas exóticas porque teoricamente é um peixe como outro qualquer. Com o diferencial de que um pedaço pode matar. E quer maneira mais boba de morrer do que comendo um peixe?
5. Brincar de roleta russa. Pelos mesmos motivos acima, apesar de eu achar bala na cabeça uma morte mais digna que envenenamento de peixe. Mais suja também, mas isso é problema para a Sunshine Cleaning.
6. Ir pescar no Pantanal. Qualquer atividade que envolva as palavras "acampamento", "céu aberto" e "mosquito" não foi pensada para mim. Incluo na lista aqueles acampamentos de treinamento de guerra e o falecido programa No limite.
7. Zorbing. Não sabe o que é? Vá descobrir.
8. Comprar um trailer. Eu nunca compraria um trailer, eu nunca viajaria em um trailer, eu nunca dormiria em um trailer, eu nunca moraria em um trailer. A menos que esteja passando necessidade. Mas acho que prefiro morar embaixo de uma ponte. Pelo menos é mais Brasil.
9. Abrir uma empresa. Não nasci para administrar o meu dinheiro, que dirá cuidar de funcionário. Meu sonho sempre foi receber, entregar a grana na mão de alguém e dizer "tome conta". Desde que eu tenha um cartão de crédito ilimitado e nenhuma conta a pagar, perfeito.
10. Ter uma fazenda. Apesar de estar no sangue, virei urbano demais para me ver no interior, umas vaquinhas, umas galinhas, uma casa no campo onde eu possa compor muitos rocks rurais. Prefiro guardar meus (poucos) amigos, meus (muitos) discos e livros aqui por perto.
Deveria ter sido incluído o item 11: parir. Mas isso é inerente a todo indivíduo do sexo masculino, e só iria consumir espaço em um texto que acabou ficando grande demais e que deveria também ter sido cortado em duas partes.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Consumerismo
Parodiando os versos de uma quadrinha infantil, "ainda não comprei mas hei de comprar" um livro chamado Como fazíamos sem... Não está tão caro assim, porém no momento existem outras prioridades. Principalmente porque a fila de livros aumentou em cinco novos volumes. O livro, de acordo com a sinopse, mostra como era a vida antes de algumas invenções úteis, como telefone, geladeira, luz elétrica. Parte do trabalho da autora, Bárbara Soalheiro, dá para ser lido em uma matéria da revista Aventuras na história, simplesmente clicando aqui.
Eu mesmo nasci no tempo da Barsa. Aquela enciclopédia, que o vendedor passava de porta em porta apresentando como a maior novidade para a pesquisa escolar. E era. Agora a Barsa é um website de pesquisa; e a Barsa enquanto enciclopédia de papel já deve estar morta e enterrada, sem direito a exumação. Aparentemente o Almanaque Abril continua firme e forte.
No entanto, não é preciso voltar 30 anos no tempo para pensar como fazíamos sem determinada coisa. Celulares, por exemplo. Mesmo achando que é uma invenção similar à coleira de cachorro, e insistentemente me forçando a esquecer o aparelho em casa, desligado, ou no silencioso a maior parte do tempo, não há como não admitir que seja algo útil. Principalmente para chamar a seguradora de noite quando o pneu do carro fura.
Pela economia gerada, as câmeras fotográficas digitais também podem ser tidas por úteis. Apesar de alguns fotógrafos discordarem e de o uso indiscriminado das tais máquinas terem popularizado a superexposição constrangedora desnecessária, também conhecida como "as fotos do churrasco na laje da minha tia quando eu bebi demais e fiz bundalelê em cima da mesa". Mas o aparelho, em si, não tem culpa. Assim como não se pode responsabilizar o inventor do carro por um atropelamento, não tem como culpar a câmera digital pelo uso indiscriminado que fazem dela. Computadores pessoais, novas tecnologias de comunicação, a lista de invenções úteis é grande.
Por outro lado, seguindo a tendência de que tudo o que é bom precisa de uma contrapartida, existem as deliciosas invenções inúteis. E vou começar barbarizando e dizer que iPod é algo desnecessário. Lamento, mas é. Confortável para ouvir as suas músicas? Sim. Eu tenho um iPod. Ajuda a aliviar o estresse na fila do supermercado, é meu companheiro de esteira na academia e no ônibus. Ajuda a trabalhar. Porém, convenhamos, dá para fazer tudo isso sem ele. Dá para chamar de prazer supérfluo, nunca de aparelho indispensável. Não o é nem para um DJ.
O iPod só não é mais desnecessário (inútil?) que o secador de alface, aquele da cordinha que vendia no Shoptime. Ou que todos os produtos fantásticos vendidos através do 011-1406, como as facas Ginsu, as meias Vivarina e aqueles elásticos de plástica instantânea que espichavam o rosto das velhas e deixaram toda uma geração, por meses, com a cara da Elza Soares. Também dá para incluir na listagem um mundo de produtos que todo mundo que já foi a uma feira de produtos para casa (aqui em Belo Horizonte se chama Unilar e estou combinando de ir com uma amiga para ver as últimas novidades do mercado de tranqueiras): filtro para liquidificador, processador manual, descascador de pepino, boleador de melão e por aí vai.
O tempo das invenções interessantes talvez nunca passe. Mas nunca uma safra de invenções é tão marcante quanto aquela que você tem tempo de ficar em casa assistindo à demonstração de tudo isso nos canais de merchandising. Já tive manhãs hilárias assistindo a demonstrações de vaporeto, da flat hose, do invisible bra e um monte de apetrecho para emagrecer e esticar o cabelo. Em uma época em que a coisa era mais amadora, não tão profissional como a Polishop de hoje, e que dava tempo para fazer algo simples, que eu não sei como as pessoas faziam sem: assistir tevê. Com direito à memorável propaganda da loção do Vicentino de Moeda.
Eu mesmo nasci no tempo da Barsa. Aquela enciclopédia, que o vendedor passava de porta em porta apresentando como a maior novidade para a pesquisa escolar. E era. Agora a Barsa é um website de pesquisa; e a Barsa enquanto enciclopédia de papel já deve estar morta e enterrada, sem direito a exumação. Aparentemente o Almanaque Abril continua firme e forte.
No entanto, não é preciso voltar 30 anos no tempo para pensar como fazíamos sem determinada coisa. Celulares, por exemplo. Mesmo achando que é uma invenção similar à coleira de cachorro, e insistentemente me forçando a esquecer o aparelho em casa, desligado, ou no silencioso a maior parte do tempo, não há como não admitir que seja algo útil. Principalmente para chamar a seguradora de noite quando o pneu do carro fura.
Pela economia gerada, as câmeras fotográficas digitais também podem ser tidas por úteis. Apesar de alguns fotógrafos discordarem e de o uso indiscriminado das tais máquinas terem popularizado a superexposição constrangedora desnecessária, também conhecida como "as fotos do churrasco na laje da minha tia quando eu bebi demais e fiz bundalelê em cima da mesa". Mas o aparelho, em si, não tem culpa. Assim como não se pode responsabilizar o inventor do carro por um atropelamento, não tem como culpar a câmera digital pelo uso indiscriminado que fazem dela. Computadores pessoais, novas tecnologias de comunicação, a lista de invenções úteis é grande.
Por outro lado, seguindo a tendência de que tudo o que é bom precisa de uma contrapartida, existem as deliciosas invenções inúteis. E vou começar barbarizando e dizer que iPod é algo desnecessário. Lamento, mas é. Confortável para ouvir as suas músicas? Sim. Eu tenho um iPod. Ajuda a aliviar o estresse na fila do supermercado, é meu companheiro de esteira na academia e no ônibus. Ajuda a trabalhar. Porém, convenhamos, dá para fazer tudo isso sem ele. Dá para chamar de prazer supérfluo, nunca de aparelho indispensável. Não o é nem para um DJ.
O iPod só não é mais desnecessário (inútil?) que o secador de alface, aquele da cordinha que vendia no Shoptime. Ou que todos os produtos fantásticos vendidos através do 011-1406, como as facas Ginsu, as meias Vivarina e aqueles elásticos de plástica instantânea que espichavam o rosto das velhas e deixaram toda uma geração, por meses, com a cara da Elza Soares. Também dá para incluir na listagem um mundo de produtos que todo mundo que já foi a uma feira de produtos para casa (aqui em Belo Horizonte se chama Unilar e estou combinando de ir com uma amiga para ver as últimas novidades do mercado de tranqueiras): filtro para liquidificador, processador manual, descascador de pepino, boleador de melão e por aí vai.
O tempo das invenções interessantes talvez nunca passe. Mas nunca uma safra de invenções é tão marcante quanto aquela que você tem tempo de ficar em casa assistindo à demonstração de tudo isso nos canais de merchandising. Já tive manhãs hilárias assistindo a demonstrações de vaporeto, da flat hose, do invisible bra e um monte de apetrecho para emagrecer e esticar o cabelo. Em uma época em que a coisa era mais amadora, não tão profissional como a Polishop de hoje, e que dava tempo para fazer algo simples, que eu não sei como as pessoas faziam sem: assistir tevê. Com direito à memorável propaganda da loção do Vicentino de Moeda.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Perdendo dentes
Fazem alguns dias sinto-me um tanto oco. Como se um pedaço faltasse nalgum lugar, algo meio que orobórico, como se eu estivesse a perseguir meu próprio rabo. Como um cão o faz, dando voltas em torno de si próprio para morder a cauda. Filosoficamente falando, o homem é um animal em busca da sua incompletude. Sempre quer aquilo que falta, e quando encontra dá-se por insatisfeito. Quer algo além. Esse algo além foi o que fez o homem andar e construir prédios. Também o levou a fazer guerras.
A maior guerra que uma pessoa trava é consigo própria. Encarar um campo de batalha não deve ser tão terrível quanto levantar da cama todos os dias. Achar motivo para dar o passo primeiro e iniciar a jornada é guerra, guerra interna dura e sofrida. Guerras são feitas de batalhas e já diz o ditado quem não se pode ganhar todas. Portanto reservo-me dias de derrota e de recolhimento. Eles são poucos se comparados à alegria descomunal de chegar em casa e descansar com a sensação de batalha justa.
Porém, assim como a todos, também me é dura a sensação da perda. Perder não é bom, ganhar é bom, aprendemos assim. Ainda que, e citando letra de música de um grupo que não gosto muito (mas se chama Pato Fu): "As brigas que ganhei / Nem um troféu / Como lembrança / Pra casa eu levei // As brigas que perdi / Estas sim / Eu nunca esqueci / Eu nunca esqueci".
Perder é também aprendizado. É treino para morte, sem a inexorável inevitabilidade desta outra. Perde-se hoje e vivencia-se um pouco a sensação do “estar-sem”. Estar sem algo, sem alguém, é ruim, é triste, é por vezes necessário. Meu oco faz-se em função do vislumbre da possibilidade de grandes perdas. Presenciais e intelectuais. Que se ampliaram para além de meus limites.
Algumas perdas reversíveis e outras irremediáveis. Todas com a mesma sensação de "eu aproveitei menos do que poderia". Mas perdas, anyway. Sem retorno. Os caminhos são sem retorno, não se involui naturalmente. O que há, quando há, é recomeço. Podemos, quando quisermos recomeçar. A menos que estejamos mortos de verdade.
* A dois: a você e ao meu avô.
A maior guerra que uma pessoa trava é consigo própria. Encarar um campo de batalha não deve ser tão terrível quanto levantar da cama todos os dias. Achar motivo para dar o passo primeiro e iniciar a jornada é guerra, guerra interna dura e sofrida. Guerras são feitas de batalhas e já diz o ditado quem não se pode ganhar todas. Portanto reservo-me dias de derrota e de recolhimento. Eles são poucos se comparados à alegria descomunal de chegar em casa e descansar com a sensação de batalha justa.
Porém, assim como a todos, também me é dura a sensação da perda. Perder não é bom, ganhar é bom, aprendemos assim. Ainda que, e citando letra de música de um grupo que não gosto muito (mas se chama Pato Fu): "As brigas que ganhei / Nem um troféu / Como lembrança / Pra casa eu levei // As brigas que perdi / Estas sim / Eu nunca esqueci / Eu nunca esqueci".
Perder é também aprendizado. É treino para morte, sem a inexorável inevitabilidade desta outra. Perde-se hoje e vivencia-se um pouco a sensação do “estar-sem”. Estar sem algo, sem alguém, é ruim, é triste, é por vezes necessário. Meu oco faz-se em função do vislumbre da possibilidade de grandes perdas. Presenciais e intelectuais. Que se ampliaram para além de meus limites.
Algumas perdas reversíveis e outras irremediáveis. Todas com a mesma sensação de "eu aproveitei menos do que poderia". Mas perdas, anyway. Sem retorno. Os caminhos são sem retorno, não se involui naturalmente. O que há, quando há, é recomeço. Podemos, quando quisermos recomeçar. A menos que estejamos mortos de verdade.
* A dois: a você e ao meu avô.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Postagem 26
Este é um blog outonal, autoral, que, parece, enfim está com o layout pronto. A gente não esperou "o verão passar" de propósito. Muito menos fique achando que vá haver qualquer mudança quando o inverno chegar. Permanecerá assim. No máximo ponho de fundo a música Primavera, aquela do Tim Maia.
A justificativa está no céu azul e nos tempos amenos do outono. Esse é um blog de amenidades, de crônicas sobre o tempo e de outros escritos esparsos. Sem objetivo maior que agradar o próprio autor. Eu, no caso. Quando a Rosi chegou com essa proposta outonal gostei de cara. Porque se tem uma coisa que a Rosi sabe fazer, e bem, é deixar algo com a cara da gente.
No mais é ir chutando a bola, aproveitar os dias sem pressa e comer morangos. Outros outonos virão, porém esse está apenas começando.
A justificativa está no céu azul e nos tempos amenos do outono. Esse é um blog de amenidades, de crônicas sobre o tempo e de outros escritos esparsos. Sem objetivo maior que agradar o próprio autor. Eu, no caso. Quando a Rosi chegou com essa proposta outonal gostei de cara. Porque se tem uma coisa que a Rosi sabe fazer, e bem, é deixar algo com a cara da gente.
No mais é ir chutando a bola, aproveitar os dias sem pressa e comer morangos. Outros outonos virão, porém esse está apenas começando.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Brasileia
Estou verborrágico. O que vem a ser um problema quando eu deveria estar trabalhando e não pensando algum texto. Mas o fato é que o escrito sai a hora que ele quer. Eu praticamente psicografo tem certas horas. Para em outras ficar suando uma linha medíocre qualquer.
O fato é que estou atormentado.
Porque fui chamado de nacionalista.
A minha primeira defesa é que não, eu não saio por aí de cocar e tambor defendendo o Juca Pirama, o pau-brasil e o Macunaíma. Até porque a Semana de Arte Moderna passou tem quase oitenta anos. Muito menos visto camisa pró qualquer tipo de purismo ou puritanismo.
Porém preciso assumir que me acabei tornando um tanto nacionalista mesmo. Ou pelo menos falando mais sobre o produto interno.
Tipo. O melhor livro que li esse ano de 2010 foi mesmo o Galiléia. Recomendo a qualquer um. Ouço Angela Maria, Ney Matogrosso, Dolores Duran, Elis Regina, Rita Lee, Klébi Nóri, Teresa Cristina, Rita Ribeiro, Maria Bethânia. Gilberto Gil. Chico Buarque. Fui em um dos últimos shows do Chico Science e adorei quando assisti a um show vazio da Paula Lima. Acho ponto de macumba coisa de uma musicalidade fantástica. Mais da metade das músicas que tenho em casa é mesmo cantada em português brasileiro. Já gostei mais de Jorge Amado e acho as novelas do Sílvio de Abreu, junto com as do Gilberto Braga, quase sempre excelentes. Queria ser amigo da Danuza Leão e uma vez perguntei à Fernanda Young se fumar sálvia dá mesmo barato (o que me rendeu uma dedicatória "É verdade, mas não espalha" em um livro que perdi). Adoro a Denise Stoklos, admiro demais o trabalho dos meninos do Luna Lunera. Gosto de feijoada e fui criado com goiabada cascão da minha avó. Quando escolhi o buffet de um coquetel, preferi purê de mandioquinha em vez de vols-au-vent. Amo cachaça e frango com ora-pro-nóbis, que na minha cidade é conhecido como lobrobrô. Coleciono música brega.
A lista não teria final hoje, e eu poderia terminar fazendo um manifesto Brasil-te-amo, com chapéu de cangaceiro e defendendo o artesanato do Vale do Jequitinhonha. O que não vai acontecer. Porque não gosto do artesanato do Vale, isso é público.
Porém não é só isso. Olha a contrapartida.
Sou fã de literatura descartável: crepúsculo, Harry Potter, Percy Jackson, diários de vampiro, Meg Cabot. Livros de faroeste e detetive, daqueles de bolso (alguns escritos por brasileiros, mas tudo com nome estrangeiro). Leio (ou li) Maurice Druon, Joseph Campbell, Fritjof Capra, Kafka, Garcia Márquez. Amo Bergman, escrito e filmado, e para mim Fanny & Alexander é o melhor filme de todos os tempos. Mais que Cidadão Kane. Queria ter sido amigo da Audrey Hepburn e adoraria contracenar com Meryl Streep. Milk-shake é uma invenção perfeita, eu tomaria um por dia se isso não me transformasse em um barril ambulante maior do que já sou. Adoro cinema francês e Edith Piaf, já comi escargot e gostei. Provavelmente viveria muito bem em Paris, Londres ou Praga. Gosto de Beatles, fui no show da Madonna, no dos Rolling Stones e me carregaram certa vez para o Deep Purple (mas desse não gostei). Chorei quando vi a Diamanda Galás. Arrependo até hoje de não ter ido ao show do Rufus Wainwright praticamente na porta da minha casa só porque estaria cheio demais e não foi quase ninguém. Ouço ABBA, Donna Summer e adoro disco music, principalmente para dançar. Coleciono dvds de séries americanas e amo desenho animado.
Mas não gosto de metal pesado, não gosto do Iron Maiden e acho Oasis e Sigur Rós um porre. Também não gosto de house, ou sei lá o que toca nessas festas que a gente entra, sai, e parece que não mudou a música hora nenhuma.
Daí que, para encerrar, eu me lembrei de uma conversa com uma historiadora amiga minha, a Adalgisa.
– Tá bom, Adalgisa. Ouro Preto é barroco. Mas e Ponte Nova, onde nasci, é o quê?
– Aquilo lá é ecletismo, uai!
E ficamos assim.
O fato é que estou atormentado.
Porque fui chamado de nacionalista.
A minha primeira defesa é que não, eu não saio por aí de cocar e tambor defendendo o Juca Pirama, o pau-brasil e o Macunaíma. Até porque a Semana de Arte Moderna passou tem quase oitenta anos. Muito menos visto camisa pró qualquer tipo de purismo ou puritanismo.
Porém preciso assumir que me acabei tornando um tanto nacionalista mesmo. Ou pelo menos falando mais sobre o produto interno.
Tipo. O melhor livro que li esse ano de 2010 foi mesmo o Galiléia. Recomendo a qualquer um. Ouço Angela Maria, Ney Matogrosso, Dolores Duran, Elis Regina, Rita Lee, Klébi Nóri, Teresa Cristina, Rita Ribeiro, Maria Bethânia. Gilberto Gil. Chico Buarque. Fui em um dos últimos shows do Chico Science e adorei quando assisti a um show vazio da Paula Lima. Acho ponto de macumba coisa de uma musicalidade fantástica. Mais da metade das músicas que tenho em casa é mesmo cantada em português brasileiro. Já gostei mais de Jorge Amado e acho as novelas do Sílvio de Abreu, junto com as do Gilberto Braga, quase sempre excelentes. Queria ser amigo da Danuza Leão e uma vez perguntei à Fernanda Young se fumar sálvia dá mesmo barato (o que me rendeu uma dedicatória "É verdade, mas não espalha" em um livro que perdi). Adoro a Denise Stoklos, admiro demais o trabalho dos meninos do Luna Lunera. Gosto de feijoada e fui criado com goiabada cascão da minha avó. Quando escolhi o buffet de um coquetel, preferi purê de mandioquinha em vez de vols-au-vent. Amo cachaça e frango com ora-pro-nóbis, que na minha cidade é conhecido como lobrobrô. Coleciono música brega.
A lista não teria final hoje, e eu poderia terminar fazendo um manifesto Brasil-te-amo, com chapéu de cangaceiro e defendendo o artesanato do Vale do Jequitinhonha. O que não vai acontecer. Porque não gosto do artesanato do Vale, isso é público.
Porém não é só isso. Olha a contrapartida.
Sou fã de literatura descartável: crepúsculo, Harry Potter, Percy Jackson, diários de vampiro, Meg Cabot. Livros de faroeste e detetive, daqueles de bolso (alguns escritos por brasileiros, mas tudo com nome estrangeiro). Leio (ou li) Maurice Druon, Joseph Campbell, Fritjof Capra, Kafka, Garcia Márquez. Amo Bergman, escrito e filmado, e para mim Fanny & Alexander é o melhor filme de todos os tempos. Mais que Cidadão Kane. Queria ter sido amigo da Audrey Hepburn e adoraria contracenar com Meryl Streep. Milk-shake é uma invenção perfeita, eu tomaria um por dia se isso não me transformasse em um barril ambulante maior do que já sou. Adoro cinema francês e Edith Piaf, já comi escargot e gostei. Provavelmente viveria muito bem em Paris, Londres ou Praga. Gosto de Beatles, fui no show da Madonna, no dos Rolling Stones e me carregaram certa vez para o Deep Purple (mas desse não gostei). Chorei quando vi a Diamanda Galás. Arrependo até hoje de não ter ido ao show do Rufus Wainwright praticamente na porta da minha casa só porque estaria cheio demais e não foi quase ninguém. Ouço ABBA, Donna Summer e adoro disco music, principalmente para dançar. Coleciono dvds de séries americanas e amo desenho animado.
Mas não gosto de metal pesado, não gosto do Iron Maiden e acho Oasis e Sigur Rós um porre. Também não gosto de house, ou sei lá o que toca nessas festas que a gente entra, sai, e parece que não mudou a música hora nenhuma.
Daí que, para encerrar, eu me lembrei de uma conversa com uma historiadora amiga minha, a Adalgisa.
– Tá bom, Adalgisa. Ouro Preto é barroco. Mas e Ponte Nova, onde nasci, é o quê?
– Aquilo lá é ecletismo, uai!
E ficamos assim.
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