Alguns amigos postaram em seus perfis do Facebook esses últimos meses uma brincadeira dos 15 mais. Os 15 livros, 15 filmes, 15 músicas que marcaram a sua vida, fizeram chorar, vão ser sempre lembrados. O desafio, digamos assim, era retornar a mensagem em 15 minutos, compartilhando a lista com o amigo e passando para frente a "corrente" (na falta de um melhor termo). Interessante mas não participei de nenhuma brincadeira.
Em primeiro lugar porque sou bobo, chato e feio. Depois porque não tem como eu revirar meu baú mental e pinçar, em um espaço de tempo tão reduzido, 15 aleatoriedades realmente representativas. Mas, sendo mais chato ainda, como gostei da ideia resolvi subvertê-la e preparar uma lista de personagens (reais ou não) que marcaram minha vida.
Para o bem e para o mal. Devem ser 15, mas talvez falte (ou sobre) algum. A ordem de entrada é totalmente randômica, até pensei fazer ordem alfabética, mas vou deixar a memória mandar. Clique no nome da personagem para vê-la no
Youtube.
O espelho mágico da Branca de NeveComeçando de cara com o espelho, um dos coadjuvantes mais interessantes, em minha modesta opinião, do cinema de animação. Nem bom nem mau, o espelho diz a verdade. E filosofa vez por outra. Fora que não tem medo de responder à rainha má que existe alguém mais belo no reino. A rainha, mui respeitosamente, ouve e em momento algum dá uma pedrada no vidro e faz o espelho virar mil.
MalévolaAinda no cinema de animação, Malévola é a vilã e não se discute. Pérfida e cruel como deve ser, irritada, irritante e irritável, musa maligna da minha geração. Bia Falcão aprendeu com Malévola. Sue Sylvester aprendeu com Malévola. Eu... bem, eu também!
CassandraPersonagem de Eurípides, personagem da Guerra de Troia, pitonisa, enlouquecida e amaldiçoada. Cassandra foi condenada à privação da confiança. Ela sempre dizia a verdade, e nunca acreditavam nela. Para representar a personagem da peça em que atuei, escolhi a interpretação de Geneviève Bujold no filme
As Troianas, de 1971. Com Vanessa Redgrave no papel de Andrômaca e Katharine Hepburn arrasando como Hécuba. Taltíbio, personagem que interpretei no teatro, está também no trailer do link.
O Advogado"Sim, eu sou um homem e choro. Um homem não tem olhos? Não tem também mãos, sentidos, inclinações, paixões? Porque é que um homem não devia chorar?" Estudei
O Sonho, de August Strindberg, aos 15-16 anos. Seria uma peça que eu remontaria hoje, e faria exatamente o mesmo personagem: o Advogado. Arquetípico, não? E pensar que na época, lá no comecinho, queria mesmo ser o Oficial. Foi
O Sonho que me levou a Bergman, e à personagem abaixo.
Ismael RetzinskyIsmael é um garoto mantido num quarto fechado. Extremamente sedutor, assim como o pequeno universo em que vive. Andrógino, é interpretado por uma atriz (Stina Ekblad) em
Fanny e Alexander. Se eu pudesse em meu leito de morte escolher uma cena de filme para assistir seria, sem dúvida alguma, essa.
Don Vito CorleoneA descrição mais difícil de ser feita sem cair em clichê. Então resumo assim:
canceriano. Pronto.
BacanaQual menino da minha idade não queria ser o Bacana? O personagem, como não poderia deixar de ser, estigmatizou o Jonas Torres de um jeito que o moço foi virar marinheiro nos EUA. Mas o Bacana era bacana demais! E a
Armação Ilimitada tinha, acho, algum roteiro. E tinha Zelda, Ronalda, o Chefe...
StalkerStalker foi um filme que só assisti uma vez, e acho que provavelmente dormi em parte dele. Produção típica do Tarkovsky, clima onírico com longas tomadas, o principal do personagem Stalker é mesmo o nome. Toda vez que alguém menciona o termo "stalker" (extremamente comum nos dias de hoje) são essas imagens que me vêm à cabeça na hora.
Fania FenelonA amarga sinfonia de Auschwitz traz Vanessa Redgrave (de novo ela) com a cabeça raspada interpretando uma prisioneira judia que sobrevive a Auschwitz por causa da música e de uma orquestra de presidiárias. A Fania real não gostou muito de ter sido interpretada pela Vanessa. Pelo que lembro do filme, foi um dos que mais chorei em toda minha vida.
Eduardo II e GavestonReferência ao rei da Inglaterra, o filme de Derek Jarman ainda me marca até hoje. Não tenho como escolher apenas um do casal gay real. Mas a cena mais marcante do filme, para mim, é o menino maquiado, de brincos, sobre a jaula do rei.
MacunaímaConsigo descrever exatamente a noite em que assisti a esse filme na casa da minha mãe e fiquei chocado com o parto do Macunaíma. Não lembro se para a faculdade (dela) ou para a escola (minha), Macunaíma apareceu lá em casa para ajudar na leitura de um livro. Até hoje não gosto quando o Grande Otelo vira Paulo José.
Mary MatosoDas melhores personagens da Patrícia Travassos em uma novela que marcou a minha adolescência. Dessas coisas de querer chegar em casa logo só para ver
Vamp. Na memória a cena em que ela, de posse do comando da rádio da cidade, obriga o lugar inteiro a ouvir Recuerdos de Ypacaraí na sua linda voz de gralha velha.
Baronesa EknésiaSe a telenovela é a educação sentimental do brasileiro, a Baronesa com certeza é a melhor professora. De brinde a Rainha Valentina, em uma interpretação impecável da Tereza Rachel.
Beato SaluEu tinha medo do Beato Salu, sabia?
PerpétuaPara encerrar com uma vilã. Figura inesquecível com a misteriosa caixa branca, na qual ela guardava o membro decepado do falecido marido. A minha mãe me proibiu de assistir a
Tieta, porque chamei a emprega de fedaputa. Por isso tenho um lapso de memória de certos trechos da novela.
A lista pode aumentar, só que vou parar aqui. Afinal são 15 apenas.
*Update: pouco tempo depois de eu postar vi que o link de
A amarga sinfonia de Auschwitz foi "banido" do Youtube e não achei outro. Deixei a foto da Vanessa no lugar.