As pessoas que nasceram no fim da década de 1970 no Brasil pegaram, em sua infância, o movimento Diretas Já, eleição e morte de Tancredo Neves e mais uma grande crise econômica que levou a certa perda de poder aquisitivo da então classe média. Quem não se lembra dos preços tabelados, ou ainda das corridas aos supermercados em busca de preço baixo, com direito a estocagem doméstica de produtos? Eu lembro muito bem de, na casa da minha tia, ter uma parte do maleiro do armário cheia de papel higiênico e latas de leite condensado.
Ao mesmo tempo, as crianças dessa época foram as primeiras "vítimas" de uma revolução nas propagandas, com um alto investimento em produtos e seus respectivos anúncios voltados ao público infantil. Não esqueça a minha Caloi, chicletes Ploc, Clube do Bocão da gelatina Royal, concurso da maionese Hellman's para dar um robô que era a cara do C3PO (e até hoje lembro o nome que venceu: Jecanauta). Não sei se havia alguma regulamentação na época, sei que eu via muita tevê e que sim, a mídia levava os filhos a infernizarem seus pais atrás de porcarias definitivamente indispensáveis. A coisa foi evoluindo e com o tempo, já com a entrada do Conar, comerciais como os da tesourinha do Mickey saíram de cena.
Como um bom nascido em 1977, e com 33 anos prematuramente assumidos (na verdade só faço 33 em julho), fui uma dessas "vítimas". E como toda boa criança infernal (e mimada), tive acesso, quando possível, a um monte de besteiras. Como aquele estojo paraguaio horrível que a gente apertava botões e os compartimentos abriam. Quem nunca viu a monstruosidade de perto? Eu tive um, e era rosa.
Obviamente esse introito não é justificativo para um delito que cometi na infância: eu roubei um ovo de páscoa. Não me perguntem a razão, talvez pela crise econômica, ou talvez por ter sido uma criança gorda, o fato é que nunca ganhei, de criança, um ovo de páscoa. Entendam como ovo de páscoa aquilo que fica dependurado no teto das Lojas Americanas, o pequenininho não vale. Foi exato assim: entrei no supermercado, peguei o ovo e saí. Claro que todo mundo viu, só que na minha cabeça eu estava fazendo algo erradíssimo (continua sendo erradíssimo), mas que ninguém teria como descobrir.
Escondi o ovo por alguns dias na casa da minha tia, disse que tinha sido presente de alguém, só o comi no domingo de páscoa. Passei uns bons tempos sem me confessar, para não contar ao padre que tinha roubado um ovo de páscoa, e acho que o perdão desse crime veio em alguma confissão comunitária, aliás o meu tipo preferido até hoje. Eu e Deus resolvemos o assunto sem precisar dizer ao padre, geralmente amigo da minha mãe, os muitos pecados cometidos.
Ter roubado aquele ovo de páscoa, ao contrário do que pode parecer, não me transformou em marginal. A "culpa" daquele ovo ainda é tão grande que antes eu tivesse tomado uma surra naquele tempo. Simplesmente ninguém disse nada. Nada. Até hoje não sei, aliás, mãe, você que está aí me lendo agora, sabia que eu já roubei um ovo de páscoa? Enfim. Depois que mudei para Belo Horizonte, descobri que praticamente todos os meus colegas de colégio já tinham roubado bombom nas Lojas Americanas e o peso da culpa diminuiu.
Porém o castigo do ovo existiu e não foi uma grande dor de barriga (o ovo, acho, até que era gostoso): eu virei uma pessoa automaticamente honesta. Como se houvesse algo superior me vigiando e esperando a minha próxima escorregadela. Exemplo: na semana passada fui buscar um pedido de radiografia para uma amiga e o porteiro do prédio me entregou um envelope, daqueles de depósito em banco, com dinheiro dentro. Eu não raciocinei quanto à possibilidade de ir embora com o envelope. Foi instantâneo: "Não, moço, eu vim buscar o envelope da Dra. Alessandra, sala 319, não é esse". Mesma coisa outro dia no restaurante: o dono digitou errado o valor, R$10 a menos, avisei o erro. Virei um chato. Devolvo troco a mais, corro atrás de gente que esquece a bolsa no ônibus, e nunca achei dinheiro na rua para ter a oportunidade de pensar se devolvo ou não ao dono. Provavelmente devolvo, se souber quem é o dono, claro.
Da mesma forma não sou afeito a injustiças, em todos os níveis e seja com quem for. Alguns trâmites da vida, que alguns encaram como "simples" ou "normais", podem virar extremo sofrimento para mim, quase como psicopatia. O errado ganha extrema relevância, grita como sirene de polícia em meu ouvido. O que me levou a afirmar que não trabalho para o Edir Macedo, nem por um milhão de dólares ao mês. Vai contra a minha índole.
A questão do ovo também levou a outra válvula de escape. Agora que posso, todo ano passo nas Lojas Americanas e compro ovos de páscoa. Aliás esse ano vou fazer diferente, não vou comprar. Minha irmã vai ficar mais triste, mas paciência. Vou usar o dinheiro do ovo para outra coisa qualquer, e terá provavelmente o mesmo efeito. É uma tentativa de superar um lugar-comum da minha geração nos dias de hoje. Se você tem por volta dos 30 anos, dê uma conferida no que tem comprado que com certeza vai achar coisas idênticas, com os mesmos personagens, ou muito parecidas com aquelas que você não podia ter na infância. Ou você acha mesmo que lançaram os dvds do He-Man para as crianças de hoje poderem assistir?
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